
Tudo começou no meio do pátio. Verdade seja dita,tudo começou ao lado da cantina.Na parede lateral permaneceu o decalque da pele arrancada.
Antes de lhe elucidar dermatologicamente o caso, peço sua atenção, Luiz, ao local. Tão importante quanto as mãos -assunto doutro verso-
O prédio usado como prisão de subversivos,foi contruído sob as ruínas de um latifúndio.
Primeira grande fazenda de café. Retirava do rio, — a correr tal um tapete de entrada em frente à propriedade —
todo sustento:
água para o moinho;
água para ferver;
água para beber;
água para umidificar as escaras dos escravos chicoteados.
Modificado no leito, o andar desse rio jazia peixes…No terreno, a descrição do todo pelos passos seria: extermínio dos indígenas; sequestros; casa grande; senzala; e cemitério clandestino.
Cemitério esse que tornar-se-ia temerário espaço do atletismo.Porém o som aqui, Luiz, ainda é o dos fugitivos.
Retomo:
A fazenda tornou-se inviável. Tudo insustentável,antes mesmo de ser chamado oficialmente capitalismo.
Escravos sobreviventes, fugiram.Ao longo do tempo, imigrantes cederam as costas ao chicote. Bisavós de ossos das mãos deformados por ferros recheados com brasas, passaram roupas das trade wifes canavieiras.
Dom Eduardo após a falência,com o intestino coberto por gonorreia, se matou. Deixou tudo ao filho:seu sobrinho.
O sobrinho-viciado em ópio e apostas-descobriu que é possível viver apenas de sobrenome.
Vendeu a fazenda ao governo,embolsou o resto. Comprou mais terrenos, mais imigrantes.Três gerações depois, ainda estão filhos sobrinhos netos irmãos. A cidade continua cercada Luiz.
Você nem imagina…
O governo construiu uma escola.Quando o condor pousou no leito do rio,devidamente asfaltado, cimentado e cercado,montaram um quartel.
Tiro de guerra. Não existia guerra, nem tiro.Ao lado uma quadra esportiva.Tríade da formação do macho: escola, tiro de guerra e esportes.A sociedade vestida de regatas, pernas tal velas em pacotes,os rifles de festim, as próteses penianas.
Devido ao tamanho do terreno,a escola foi escolhida como prisão aos subversivos.A estrutura da casa grande em separado da senzala,auxiliava na disposição das funções.
A edificação das aulas;a edificação das torturas.
O passar do tempo revelou que nem tantos subversivos existiam ali.Sem ter o que fazer, -visto a população domada-recolheram os corpos / desapareceram os restos / queimaram documentos.
A cidade,como prêmio aos serviços prestados ganhou uma rodoviária.A escola ficou.
De mesmo pátio; terreno imenso.Mesma parede lateral da cantina.Parede, Luiz,em que metade do meu rosto era arrastado no intervalo.
Conheci Hugo na quinta série. De apelido Picanha;não saberia lhe dizer as motivações da alcunha.
No primeiro encontro, roubou minha comida.Também desferiu um tapa no meu rosto, exigindo silêncio.
Na segunda vez:roubou minha comida; deu me o tapa no rosto; exigiu silêncio;e apresentou meu corpo ao escrutínio público.
Nos seguintes o processo foi semelhante,até que um dia Picanha parou de comer.
Confesso grande culpa pela fome de Hugo:pensei que esconder-me seria o passo claro à dieta. Algoz de faro, encontrou-me no terreno do atletismo.Talvez até por isso, a inspiração concreta das agressões seguintes:
” A articulação do cotovelo apresenta os movimentos de supinação e pronação. Ambos com limitações dos ângulos, devido a disposição dos componentes ósseos e seus encaixes. Existe um limite, visto um osso girar sobre o outro, o que em caso de hipermovimentação ocasionaria lesões e possível fratura”.
Luiz, eu não sei se alguém já lhe torceu o braço,ao ponto da submissão. Que descreveria diretamente como:o braço supina ao extremo, estira o cotovelo.
Levado à parte posterior do tronco, na direção da cabeça. Essa posição traciona o ombro até o ponto de rompimento.
A dor, há dor, ah dor.
Quando Picanha acertava a posição do ataque, e não foram poucas, minha cabeça estacionava na altura de sua virilha. Nos episódios em céu aberto, um componente oral era adicionado.
Os dias…
Contudo, o importante neste conto não é isso. Preciso lhe mostrar outra coisa Luiz.
Crescido de andanças em pradarias outras, vez em quando retornava à cidade. Revia meus pais, alguns amores e raros amigos.
- o tempo recoberto por manutenções cerebrais permeado de substâncias tóxicas -
Compradas em mercados locais. Nem ao menos muito tempo, foi preciso para descobrir que Davi,irmão de Hugo, era vendedor de acepipes.
No primeiro encontro, cidade do interior. Era preciso ser cortês, amenidades destiladas. Davi simpático, seu produto era caro. Tudo acertado.
No segundo encontro, um pouco mais de educação e amenidades. Dei a descoberta do meu nascer. Ele achou graça.Conterrâneos, o comerciante me pergunta onde estudei.Ao dizer, outra coincidência. Seu irmão, Hugo, também.
No terceiro encontro, menos amenidades. Meu cotovelo dava sinais de vida. Esperei com cautela. Davi seguiu simpático e educado.
No quarto encontro Hugo veio.Diferente da escola,vestia uma camisa de botões.
Os dois levaram uma amostra grátis. Usamos, no meio da conversa, meu ombro sussurra. O irmão mais velho pede desculpas, diz que no passado era um pouco deslocado; e não sabia como destilar os problemas de sua casa. Descontava nos colegas da escola.Pediu que o perdoasse.
Luiz, eis aí o ponto.
Esse momento é um daqueles:— Escolhas que determinam o resto de nossas vidas.
Eu, morador da capital. Letrado. Com uma capacidade teórica e técnica impecáveis. De resultados transcedentes de eras dentro da profissão, com pessoas e mais pessoas auxiliadas. Era minha a capacidade de conciliação, entre o passado e futuro.
Eu o perdoei. Nos abraçamos, senti naquele momento uma alegria. Era um homem capaz de perdoar,maior que a própria vida. Um predestinado.
Nosso quinto encontro, ocorreu na casa dos irmãos.
Em verdade, nem ao menos parecia uma transação.
Éramos amigos.
Três pessoas com interesses comuns, demandas distintas. Decisões importantes, com uma pluralidade de vozes:mesmo que fôssemos todos do mesmo gênero, cor e posição social.
Música, conversas e (veja só você) uma picanha. No braseiro. Eram bons tempos.
Permaneci polido por alguns minutos, eles insistem em um pouco mais.
Eu concilador que era, aceitei. Éramos amigos, lembra?
Pedi licença, fui à cozinha pegar mais bebida. A geladeira ficava em um espaço entre a parede e a pia.Esta, lembrava os móveis de lanchonetes. Ou cantinas.
A meia distância ouvi vozes, por cima do ombro percebi uma sombra. Fechei a geladeira. Virei o corpo ao retorno.
A cozinha vazia, livre espaço. Andei.
Até a sala um corredor e o banheiro.Já estava lá mesmo. Decidi entrar.
Hugo saltou de dentro da pia, no meu braço esquerdo fez morada, a mão era ainda mais forte que a da escola. Meus ossos rangem, cotovelo esticado ao máximo. Ombro queima. Meu rosto esfregado na parede, no corredor desta vez. Os irmãos riem. Perguntam se eu realmente acreditei. Hugo leva minha mão ainda mais à cabeça, a escápula parece querer sair do corpo. Meu rosto resguarda um líquido, a parede era áspera demais. Estou dobrado ao meio. Dor uma vez mais Luiz, uma vez mais. Hugo me arrasta até a sala. Eles recobrem meu nariz. O branco quase me cega. Maquiado, meus ossos a trincar. Davi dilacera chutes. Hugo espreme meu úmero. Tudo turva-se no passo dos séculos. Como se um réptil de carcaça, arrastasse uma navalha na minha pele. A cabeça, na altura da virilha. Hugo retira o cinto.A fivela lembra a de meu pai. Passa o aparato ao irmão. Serão exatos três minutos de chicotadas com a fivela, eu contei Luiz; eu contei. O pó da conciliação amplia-se. Em tontura, sinto um filete sair do supercílio, as gotas caem rosas. Tudo agora são luzes foscas. Os irmãos me arrastam pela casa, um deles segura uma estaca. Com a mão livre, tento limpar os olhos. A torção no ombro aumenta. Escuto um estalo. Ao cerrar as pálpebras com força, acordo em um terreno baldio.Meu braço não se move.A outra mão aprende o novo relevo do meu rosto.Cabeça em terremoto. Sinto um líquido, a escorrer de um lugar que não deveria.
Luiz, foi naquele instante que entendi ser necessário mover os pés.
