Março 2026:

Março vinte e cinco, o dia, São Paulo.

Gergelim, sementes de abóbora secas, mel e água.

Os joelhos ainda doem, os espólios d’alma entretanto aclaram esperança.

Um homem em camisa de gola solta demais. Ao seu lado outro, de andar precavido. Olharam as feridas no concreto do prédio ocasionadas pela britadeira. Parada, pois a broca se entediou e foi-se embora. Na saída, quase atingiu uma senhora na rua. A senhora espantou-se. A broca amaldiçoou-a em agudo tão pálido, que um grupo de crianças a esfoliar licenciaturas fez troça.

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O homem da gola solta demais riu e deu ordens indiretas.

Toda essa reforma do prédio me parece uma tela em que o universo tentará elucidar os caminhos da loucura humana.

A terapeuta espantou-se.

Não esperava meu budismo diante da recusa editorial do livro. Claramente menos preocupada com a possiblidade de auto sabotagem. O que ela não sabe, é que esta visitou-me durante muitos dias durante a semana.

Ainda não decidi se conto ou não sobre esse anseio…

Não contei.

Talvez ela saiba.

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Por muito tempo não entendi como a vida poderia ser luz,

hoje sim.

Março vinte e seis, manhã, São Paulo.

Calor extremo. Bombas ainda matam crianças.

Me espanta a enunciação de certos homens (sempre) em posição de poder. Um mistério linguístico dual quando convém e, o que mais me aterroriza, de apagamento.

Émile, nascido sírio e chamado Ezra, Benveniste, define alguns parâmetros estudados até hoje sobre o assunto. Inicialmente criticou a definição clássica de pessoa pois não responderia a certas perguntas. Uma delas:

— Qual conteúdo implica cada uma das pessoas?

E também:

— Quais relações reúnem diferentes pessoas?

Nenhuma das conceituações clássicas as elucidou assimetricamente. E mais; definições não preveram o caráter opositivo dentro da análise de discurso que estas possuíam.

Ora pois bem, se há um princípio de oposição, este só poderá ser atingido quando do entendimento de como cada conjunto de pessoas se opõe as outras. O que apenas pode ocorrer quando entende-se o que diferencia cada uma delas.

É essa oposição que marca o discurso, que nada mais é que a língua em emprego e ação. Nesse parâmetro de diferenciação, as nuances complicam-se e encontram-se com a premissa:

Benveniste definirá então relações entre eu-tu e ele dentro da enunciação, que o professor Luiz Fiorin chamará também pelo sinônimo de texto, em suas aulas na TV Cultura. Para o linguista sírio, as definições gramaticais de pessoas são insuficientes para entender por completo o papel desses três elementos no discurso. Por isso definirá:

a) Seu objeto de estudo como a abordagem verbal da pessoa.

b) As pessoas são participantes da enunciação.

c) Enunciação é entedida como colocar em funcionamento a língua por um ato individual de utilização.

d) Eu-tu estão implicados no discurso sob uma relação de dualidade, o que os condicionam como parceiros da enunciação. Quando eu toma a palavra, fala para tu, que ao retomá-la torna-se o eu, invertendo o começo, tornando o eu em tu.

e) Ele é uma não pessoa (tenho um raciocínio sobre essa frase “Ele não é pessoa” relacionada ao posicionamento contemporâneo do homem e o gênero, entretanto, farei-o em momento outrem).

retomando e) Ele é uma não pessoa. Não participa do ato enunciativo. Quando o eu designa aquele que anuncia, só pode fazê-lo através da proposição do diferente, ou seja, de tu. Ele é simplesmente o objeto do discurso (aquilo ou aquele do que se fala), por isso, a não pessoa pode ser representada por ilimitadas referências de sujeitos e coisas, contendo o “tudo mais” na enunciação. Nas orações sem sujeito, por exemplo, que descrevem fenômenos da natureza, a utilização do verbo em terceira pessoa para descrevê-los é uma norma. Isso comprova o caráter de não pessoa pois inexiste um agente do processo, apenas um relato do mesmo.

Há outra característica, ligada a essas pessoas verbais, que o professsor Fiorin descreve como efeitos de sentido do texto. Criada através dos mecanismos da linguagem: a objetividade e subjetividade. Quando o enunciado se utiliza do eu-tu ocorre a segunda; na utilização da terceira pessoa o que surge é a objetividade.

Chego então aos discursos dos tais homens. Todos eles começam pelo eu que diz. O que automaticamente cria um tu. E quem é esse tu? Normalmente esse enunciador fala aos seus governados e, principalmente, com o povo que no momento daquele discurso recolhe corpos nos escombros.

Mas eis aí uma sacada linguística dos novos colonialistas. Logo no começo desse enunciado o eu tornar-se-á um nós. O que é pitoresco, pois Benveniste falará sobre essa pessoa também. Quem é esse nós?

É a chamada pessoa amplificada. O eu mais outros, o eu mais outras, o eu mais outres. Essa nova versão, nesses enunciados específicos, é acompanhada normalmente da coisificação da não pessoa. Nesse momento e enunciado retoma ideias como extermínio dos animais, obliteração completa e total de suas capacidades bélicas, a destruição dos prédios militares, e obviamente o nunca citado, mas subjetivado através do eu que diz, assassinato de crianças em escolas.

Quando o autocrata diz eu, ele cria o sujeito e a subjetividade. Quando enuncia o nós ele amplia esse sujeito ao tu. Ou seja, não sou eu assassinando mulheres em nome da liberdade, somos nós. E com isso empurra a não pessoa mais longe na desumanização. O que não é um problema linguístico, mas de caráter do enunciador. No momento que o tu torna-se um ele, o genocidio torna-se um modelo de nós.

“Eles são animais e nós vamos exterminá-los”.

Homens de poder. Nem todos homens, mas sempre um homem.

Podemos inclusive, como homens, a partir de agora interpretar essa frase de outra maneira.

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Tapioca: do pó ao círculo tal uma tela em branco.

Treino de pernas sempre é bom, mesmo com joelhos de plástico. A cadeira extensora é meu utensílio medieval de preferência pois resgata-me uma das poucas lembranças ternas do colégio. As pernas. Sempre notadas menos pela beleza, mais pela novidade e presença. Faziam-se vivas. Como consequência, eu também.

Até a próxima ferida aberta.

Dona L. segue brava com a reforma. Reclamou dos tapumes. Obviamente me arrependo de tocar no assunto, pois a conversa estendeu-se mais que o necessário.

A luz se apagou.

Março vinte e seis, noite.

A ideia de escrever pode não passar apenas de uma mera ilusão do ego masculino?

A derrota, sempre um abraço.

Pensei de repente na morte nos moldes de minha infância. O medo foi mais próximo do que um simples olhar nos olhos duma coruja no abajur. Talvez seja por conta da idade, ou enfim seja o medo finalmente me alcançando. Ainda não consegui decidir. Mesmo assim estou feliz por iniciar um novo conto.

Isso me acalenta. E só o tempo sabe como precisamos de acalento.

Março vinte e sete, vespertino.

Treinei até quase o desfalecer.

Dona L. em calmaria.Assertiva por conta da certeza que os tapumes, dispostos a interromper toda luz, sejam para sua completa proteção.

As pessoas acostumam-se ao calabouço, quando convencidas ser para sua segurança.

Mesmo presas.

Como parte do processo de remoção de ossos,músculos, articulações e corpos-promovido pela prefeitura-foram construídos canteiros de concreto.

Recheados de saibro,terra vermelha e entulhos.Como vegetação, utilizaram um tipo de mato. Parecido com os que vi na infância na beira do Jaú.

O Jaú é um rio.A Avenida São João, concreto.

As plantas sem luz,água ou substrato,estão morrendo.

Tornando-se enchimento de colchões nativos.Jardim outonal de garrafas plásticas,sacos de lixo e sapatos.

A planta que mais gosto aqui em casa também está morrendo.Era um monumento dentro da floreira,cobrindo de folhas a tela de proteção da sala.Teve que ser retirada para que uma obra no condomínio fosse feita.

Está em um balde com água.

Pensei nos corpos retirados,presos por não terem uma floreira de criar raízes.Soltos,respirando aos devaneios,esperando o tempo retornar ao zero.

Folhas amarelando...

Março vinte e oito, quase noite, São Paulo.

Hoje a cidade mostrou tudo o que pode ser,por entre o céu e um horizonte desenfreado.

Foi quase como estar sonhando.Os sons de menores oitavas e um pequeno vento pelos cantos do cabelo.

Foi bom. Encontrei antigos amigos. Tenho saudades deles.De vê-los na casa, conversar com cerveja e comida.

Tenho medo de morrer isolado e amargo.

Março vinte e nove, perdido no tempo, São Paulo.

A angústia me pegou vestindo vermelholaterais por um porémquase revelaram seus anseios.

Desenganado tornei-me conscienteapós o tropeço na calçadaesperança despedaçadaatravessou a tarde em desaviso.

Por mais que a dor lhe seja resistenteainda reside a resiliência do respirartentar por entre espaços um milagre.

Os olhos desviaram-sepalavras minúsculas espaçaram-senem ao menos a sombra esperou os segundos necessáriosapenas desapareceu por entre os carros.

Uma única conjunção atravessada por um trovãoo soco no estômago depois de quatro horas e meiapensando estar a salvo da angústiavestida em vermelho.

Março trinta, sopro vespertino, São Paulo.

O diário da manhã desapareceu por puro esquecimento. O pensar obteve níveis pífios de produtividade por entre uma escrita a perfazer um caminho de esforço físico. Transitando entre o hiper estímulo e a paranoia. Um estado catatônico, estafa. O corpo maquinario responde aos exercícios tal roldana.

Contudo, o poema de domingo ficou para trás.

A obra no prédio não tem mais fimrespiramos sílica como algodão docecasa toda suja com pés de pouso na luana borracha do quarto.

Uma cortina de plástico bolhatenta salvar dois macacos de madeiradum ataque de asma mortaleles, cobertos de areia industrialressecam ao lado do umidificador desligado.

Difícil retirar a televisão do cofre de poeira cósmicapernilongos foram soterrados enquanto alçavam voofloreira como um filme de ficçãosobre sobreviventes do apocalipse atômico.

Solitária no calçamento, uma pastilhadesgarrada dos destroços pedindo ajudafoi morta arremessada do outro lado da ruaonde um bueiro lhe sequestrou as pernas

Eis um poema de destruiçãocasamata de parada respiratóriajoelhos de almofadas gastastravam a passagemde quem ainda tenta sobreviver aos solavancos.

Marco trinta e um, manhã, São Paulo.

Há uma enorme distração entre ver as pessoascompreender seus passostentar retirar disso algoum trecho de históriauma rimaum sintagmaalgo.

Me parece muitas vezespor mais que leianada se fixase bem que nesse momentoconsigo lembrar tudo que escrevi até agorasobre o formato in quarto.

Depois de muito tempovi um jogo de futebol da seleçãonão me empolguei em nada.

Ainda penso ser perseguidoque existe uma conspiração.

As cartas estão todas prontasenviei duaso professor respondeunão tive coragem de abrir.

Em menos de seis horas um inferno será aberto no meio da salatodo forrado por papelõese sacos de terra marcadoscom o número do apartamentodificilmente haverá sobreviventestalvez testemunhas permaneçamcom suas sombras queimadas nas paredes.

Espero poder viver o suficientepara me convencer de respirar a vidasinto o peso das pernas alongandoas mãos inalando o tempoo corpo em seus últimos rompantes de lucidez.

Minha planta predileta segue morrendotodas folhas esvaindo-se em amarelohá uma pequena -mas nem tanto-esmeralda agarrando-se aos laços que mantém os galhos unidosuma fotossíntese em dilemaquando sua ponta perseguea palavra sun escrita na cortinamas a luz permanece do lado contrário.

Março trina e um, tarde, São Paulo.

A cana e os sintomas persistiram. Ferrovias, rodovias, caminhões, usinas e principalmente corpos humanos em cinzas. Plantações cercando uma cidade além dos olhos. Terrenos completamente queimados que cobriam a cidade por lençóis de lascas. Ao atingirem a nossa pele branca, pintavam-na com os gritos dos que estavam enterrados dentro daqueles campos. Na época da queimadas éramos todos cadáveres.

Imagens:

Apenas um acidente:

Poucos dias permaneceram na memória quando criança. Não consigo, até hoje, enumerar quais motivos deixei pequenas estâncias da alma desgarradas através dos anos. Muito falei em terapia. Muito dividi com meus amores, inclusive, o que tramou ser eterno, até hoje teima escutar.

E não são poucas vezes o desfalecer por entre o sal da terra que meus olhos desobstruem. Um estreito em guerra dentro do peito, ao recordar de meu pai.

O lenço que envolve meu rosto descendo lívido pelo pescoço como se as mãos dele ainda tocassem meus olhos, daqueles dias que teimava reinar pela casa. O formato de suas palmas acalmando meus erros enquanto dizia filha ouça sua mãe. Acordes de seu sono ressoavam toda a vez que deslizava as mãos pela fechadura. Os sapatos ao lado da cama, o terno preciso na cervical da cadeira. Seus roncos mornos que só o cansaço daqueles braços leves, que me carregavam por entre brisas de uma cerejeira, ouviam.

Minhas brincadeiras com aquelas cordas velhas, deixadas ao lado de seu uniforme. Manchadas. Eram elas que prendia, com nós reforçados no pescoço dos postes da rua, para poder pular.

Ele sempre sorria ao me ver usá-las.

Sons:

Talvez esse seja o momento mais íntimo dentro desse boletim informativo. Meus ouvidos não divido, até agora.

Todas as escolhas dela são bem feitas. Todas. Não há uma só construção dentro desse disco que não me faça ficar alegre.

Sempre que preciso de concentração nesse último mês, esta é a primeira trilha escolhida. Depois, uma lista de canções de jazz iranianas. Microtonalidades que chegaram por conta da droga de entrada chamada Angine de Poitrine.

A construção por camadas é uma das nuances dentro da linguagem qual sou viciado. Muito. Procuro padrões de repetições ou assimetrias que se encaixem, formando algo completo ou com farpas muito bem encaixadas. Esse é o caso.

São dezesseis músicas em doze minutos. Façam o que quiserem com essa informação. Costumo dizer que certas coisas me salvaram na vida, o grindcore foi uma delas.

Uma das melhores cantoras que ouvi. As escolhas sintagmáticas da linguagem são fenomenais. Tudo se expande de forma orgânica. Batidas vírgulas, exclamações retornam ancestrais. Lindo disco de final de tarde.

“Não trate seu bote salva vidas como um iate”.

Um dos melhores do ano.

O dia em que seu pesadelo tiver uma trilha sonora, será essa. Estupendo como quase toda a discografia da dupla. Segue com Swans, uma das minha bandas prediletas.

Dez anos depois da saída de Scott Kelly, por conta da insustentável presença de seus abusos e violência doméstica na história da banda, eis um dos melhores discos na história do grupo. Há uma lenda que Chaos AD do Sepultura foi fortemente influenciado pela banda de Oakland. O metal do apocalipse na sua mais ampla linguística. Desenfreadamente maravilhoso.

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