Junho oito, tarde, São Paulo, 2026.
— Obviamente sei que isso é uma transferência.
Devo tratá-la em terapia, pois ao primeiro sinal de cuidado -sem o perigo de punição- minha tendência é projetar proteção. Isso posto, é representamen paternal.
O avatar do que gostaria de ser como pedreiro:
nome de respeito dentro do meio acadêmico e literário;
livros lançados, pesquisas;
participando de mesas redondas em bienais do livro;
Tudo o que eu sonhei para mim mesmo.
Como um pai: um exemplo.
Mesma origem semântica.
Viveu tempos sem saber quem era;
como eu.
Um modelo do masculino.
E veja bem:
sempre que alguém se apresenta como tal
minha atitude é matá-lo
do mesmo modo que meu pai.
Por isso eu tenho a certeza:
deve achar meu trabalho uma merda.
Sinto em todo olhar;
nas minhas explicações.
Sabe que sou uma fraude.
Hoje, em certo momento,
tentei fazer duas aproximações com frases amenas;
após as duas me senti um completo idiota.
— Tenho certeza que percebeu.
Muito gentil jamais falaria.
Diferente de meu pai que soltaria a mão em meu rosto.
&&&
fase maníaca:
estou a construir um site
estou escrevendo a introdução do TCC
estou a escrever meu segundo livro
estou em processo de lançar o primeiro
estou a ler mais artigos sobre Philadelpho Menezes
estou aprendendo linguagem de programação
estou repetidamente pensando que vou morrer
fase maníaca.
&&&
final de semestre.
pelos menos consegui voltar aos meus diários.
Julho vinte e sete, dia, São Paulo, 2026
Hoje retomei meus diários. Não sei bem o que contar ou que escrever, pois passei muito tempo distante. A fase maníaca arrefeceu ao redor do dia doze.
A depressão que comigo dança desde então
me parece uma competidora de salão com anos de experiência
e troféus em diferentes categorias.
Dança tango, samba, jazz e valsa
com a mesma desenvoltura
ritmos modernos como o rap.
Do meu lado
estático quadril
sucumbe ao desespero
em vê-la solta pelo salão.
Como se esperasse um amor
lhe entregar a vida por entre os pés.
Retomaram a obra,
termina assim meu tempo de estudos.
&&&
Julho vinte e sete, noite, São Paulo, 2026
Comprei um pegador, afiador de facas e ralador para casca de limão.
A China passa por uma crise imobiliária.
Pouca gente e muitos apartamentos.
Eu nem tenho uma cova.
Julho vinte e oito, manhã, São Paulo, 2026
Lembrei-me apenas hoje que me esqueci da cidade na data.
É bem possível estar com menos pensamentos sobre o lugar onde vivo.
Reiniciei desde ontem a escritura do meu trabalho de conclusão de curso, obviamente sobre Philadelpho Menezes. Não é uma segunda versão, mas a reescritura com acréscimos teóricos. A introdução por exemplo, está modificada quase por completo. Como na iniciação científica, escrever sobre a obra de Menezes é das coisas mais prazerosas desta vida. Espero apenas que consiga terminar no prazo, pois toda a vez é sempre o mesmo refrão caveniano de “We Call Upon The Author”:
“Prolix! Prolix!
Something a pair os scissor can fix”
Também recomecei outro texto de “A Cria do Oitavo Dia”, livro em fase de primeiro rascunho que sucederá “Descarrilo Cotidiano”, a ser lançado pela Editora Urutau em algum momento entre 26/27.
Escrevo em “Cadáveres de Mármore” sobre a morte e como um dos narradores do livro lida com o tema. O término me fascinou desde pequeno. Passava horas antes de dormir, na infância, pensando o que aconteceria se eu morresse ali, aos dez anos de idade. O pavor do arrefecer eterno ao dormir, naquele tempo era asfixiante literalmente. Foram alguns episódios de paralisia do sono.
Julho vinte e nove, dia, São Paulo, 2026
Acordei com nada.
Quase vazio. No máximo duas linhas de palavras.
Além disso, apenas lágrima de sono na lateral d’olho direito.
Com essa são quatro linhas.
Há esperança.
Julho trinta, manhã, São Paulo, 2026
Ter a coragem de Basquiat não é algo comum neste mundo.
Sua obra sempre me fascinou pelo mistério. Há algo ali, esperando ser descoberto por entre as linhas. Uma antecipação controlada pela forma como ele lida com a relação sintagmática das palavras e como ele utiliza o signo imagem sempre como pontuação ou como uma colagem determinante da mancha textual.
Um poeta completo.
Julho trinta e um, dia, São Paulo, 2026
Parece que já existe um retorno ao ritmo de escrita,
apesar da diminuição das horas.
Contudo, a construção retornou.
Resta agora colocar em ordem a rotina.
Quanto mais a literatura se afasta do cinema, mais estaremos reféns da performance algorítmica. Palavras em telas, sejam elas de tecido, papel ou tecnológicas necessitam da flexibilidade do tempo.
A forma como o cinema desloca o tempo leva à literatura uma expansão de sua materialidade, fazendo com que a capacidade de criação se altere e as histórias possam ser escritas longe da fábrica de padrões em que o mercado está inserindo o livro.
Entender o alongar e contrair o tempo, do mesmo modo utilizar o vazio dentro da literatura, é um caminho contrário ao da criação de novas categorizações que insistem em levar o livro para um projeto passado. Que em primeira instância, nos trouxe aos problemas atuais.
Agosto quatro, manhã, São Paulo, 2026
Em 2024, essa semana foi a semana que o ciclo de morte do Fonseca começou. Isso obviamente me afeta de formas mais silenciosas, mas não menos agudas. Acho que desde então tudo é um eterno destruir-se a rotina e tentar reconstrui-la aos poucos. Até destrui-la uma vez mais.
Acompanha culpa da luta perdida.
A vida talvez seja isso: um caminhar ao eterno morno retorno, o esquecível se torna lembrança em algumas camadas de sofrimento, que quando terminam ressoam uma vitória oca, perfazendo a ilusão de que se tem coragem e que a felicidade existe em alguma forma como transcendência da dor.
Agosto cinco, manhã, São Paulo, 2026
Estou satisfeito. Ontem a rotina matinal de escrita e exercícios voltou ao ritmo, apesar da primeira ainda me parecer um pouco mais travada, pois se resume aos diários.
O que me preocupa em relação a como o livro será escrito. Fiz algumas anotações no caderno sobre a resolução. Ainda não sei se contos ou poemas, apesar de entender que ao escrever um poema, utilizando as nuances do gênero conto, as cenas tornam-se mais fluídas. O verso me dá um melhor ritmo dentro da história.
Isso se completa com a reestruturação da mancha textual.
As manipulações dentro do poema sob esse aspecto me parecem abrir a possibilidade de experimentar um enfrentamento ao paradigma temporal do texto. A mudança da mancha se mostra um elemento em que seria possível expandir ou compactar o tempo dentro do enunciado.
Imagino que por conta disso, os espaços em branco ou signos que necessariamente não sejam verbais (como traços ou rabiscos), possam garantir uma outra dimensão dentro desse experimento. O que ainda não posso garantir ser verdade, já que não testei-o.
Acredito porém que essa configuração possa ser utilizada como forma de caminho.
&&&
Minhas ilusões são causadas pela incapacidade que tenho de amar a mim mesmo. Isso me ocorreu depois de assistir a entrevista de Leandra Leal no programa da TV Brasil. Ela discorre sobre o assunto, pelo viés do machismo, e depois de ouvi-la, percebi que toda minha trajetória de vida tem relação com isso.
A violência que impediu meu existir, a incapacidade de amar a mim mesmo fez com que eu buscasse outras formas (em sua maioria destrutivas) de poder ser. Isso pode até ser relacionado com vários momentos dentro de minha vida em que criei ilusões sobre amor e sobre quem eu era. Todo esse arco atracava em um eterno porto confuso, onde jamais se poderia saber o limite entre o desejo de vida como potência dentro de um trauma ou uma mentira muito bem elaborada como forma de sobrevivência.
Isso também poderia tornar-se tema do livro.
Agosto sete, manhã, São Paulo, 2026
Fiquei levemente decepcionado com o workshop sobre roteiros. Minha impressão é que ao longo do tempo, essas aulas não mais disfarçam que estão realmente tentando vender cursos e não passar algum tipo de conhecimento.
Hoje irei fazer mais um, de maneira mais remota, se é que seria possível existir tal posição.
Na sala de espera do consultório médico:
um homem entre os sessenta e setenta,
acompanhavam duas mulheres:
a primeira de vinte e poucos,
a segunda de outros tantos.
Na camiseta dele duas linhas verticais paralelas,
à esquerda:
22, .40, 38, 9mm, 12
à direita:
mais fácil que discar 190
a sogra era a segunda.
Imagens:
Os filmes e textos ainda pairam em uma incerteza de continuidade. Por óbvio que ainda os assisto, mas escrever sobre eles aparentam mais suspiros de desistência do que digitação ou rascunhos.
Por conta disso, àquele segundo poema do boletim passado, deixarei por aqui agora como parte desta seção. Obviamente sem título.
Segue:
Enterrado no peito permaneceu o tiro
que nem ao menos nasceu de algo
apenas surgiu.
Por definição tornou-se sólido
mais até do que a própria vida
visto esse balaço permanecer correndo
entre os pulmões e a garganta
pelo resto de seus dias.
Ali, naquele dia definiu-se o ódio
a gratuidade da violência
o cadafalso da inaptidão
contados, foram exatos quinze segundos:
um enquadramento plano dos olhos
a diagonal das bocas semi cerradas
contemplando-se como duas espécies
que se encontram após um longo período de migração.
O braço direito semi coberto
de um tronco visível por entre a iluminação
luz diagonal
meio da manhã
um espaço entre o meio fio e os pés
preenchido por um vapor de sombra
expirando tal qual uma marreta.
O lance certeiro
acertou o peito ao meio
demarcou vala no esterno
ressoou por dentro dos pulmões
abrindo caminho ao poço
sem corda ou balde muito menos água
cheio de concreto.
O lance era exato
esquadro de uma tempestade perfeita
que atravessou a maré da infância
devastando por completo o continente
redesenhando todo o território
deixando como herança apenas o deserto
de rebordo salgado como decapitação.
Por entre medos alheios
percorro minhas próprias sombras
medos sem dono soltos
os quais me apoderei
como único futuro.
Duma escola se escondem
través azulejos sujos
telas azuis
telefones transversais
um deslocamento do ódio
para dentro
tentativa de fuga
pela fibras do compensado das carteiras.
Diante do desespero do mundo
só resta encher o coração de vida
O cheiro do entulho queimado
forma um triângulo goethiano
de cores em minhas artérias
Um andaime infinito.
Observação: escrevo essa linha enquanto edito o texto. Pensei em um título:
“Andaime”.
Sons:
Também uma lista menor, contudo esse boletim já está em duas mil palavras e as taxas de abertura seguem horrendas. O que não me espanta, muito menos me dá esperança que ao escrever menos, os setenta e um vírgula sessenta e três por cento de pessoas que recebem meus escritos, e não os abrem, os abram.
Esse mês só pop:
Meu atual disco de relaxamento. Menos pela alquimia do oriente, clichê mais antigo do mundo da música (os Beatles inventaram isso também), mais pela capacidade de Albarn escrever linhas transicionais extremamente suaves. Do ponto em que sons deslizam pelo seu rosto até tornarem-se luz através dos dedos.
Uma coisa que me ocorreu neste minuto de escrita, é que talvez, e apenas talvez, desenvolvi um apego levemente inexplicável a esse disco pois o título seja a frase que mais irrita em quase todos os relacionamentos que tive.
Irremediavelmente em algum momento a pessoa irá perguntar (em alguns casos afirmar com uma certeza que só os que se acham certos têm), porque eu sou uma pessoa tão triste se reciprocamente estou apaixonado, amo etc.
Quando isso ocorre de maneira repetida, pois eu tenho depressão diagnosticada, essa pergunta aos poucos transmuta-se num rastilho de pólvora próximo aos restos mortais ativos de uma bomba atômica. Eu pareço triste por uma série de motivos, do mesmo modo que eu pareço ser uma pessoa muito brava quando me veem pela rua. Eu apenas sou depressivo e presenciei muita violência urbana morando por vinte anos em São Paulo. Isso trouxe uma fachada de proteção que uma cidade tenebrosa (tenham certeza, essa cidade é um inferno tectônico) só exacerba. Ainda mais em tempos de hiperrealismo fascista.
Olivia, eu te entendo, mas a tia Robert Smith parecia perdida.
Descobri essa banda por acaso na KEXP. Estavam para lançar esse disco, que demorou mais uns bons meses. Não existe aqui nada que o Stereolab não tenha feito, o que não deve ser uma onerosa nota de pesar. Existem discos que obviamente cansam antecipadamente, levando em consideração parecerem interações de um prompt de comando e um teclado Moog. Aqui os sons vão aos poucos tomando corpo e depois de “Telephatic Butterflies” tudo corre bem.
Eu gosto desse disco mais do que deveria;
Ouço esse disco mais do que deveria;
Penso que Joey Ramone amaria esse disco mais do que deveria;
Tenho a impressão de que “Music, Fashion, Film” conversa com “Tin Machine” mais do que deveria;
Tenho a certeza de que a participação de Cronenberg é uma das maiores sacadas do ano mais do que deveria;
Eu canto o refrão de “Card Decline” mais do que deveria;
O refrão de “2007” grudou no meu encéfalo mais do que deveria;
Acho que esse disco seria um clássico punk, fosse lançado em 1972, mais do que deveria.
O mais literário do The Cure com a canção mais linda já escrita neste mundo chamada “A Letter to Elise”.
Pura sacanagem. Fosse um filme, certamente no Letterboxd a discussão sobre cenas de sexo coerentes com a trama ou em demasia seria uma tônica.
A voz de Jessie Ware é.
Existem duas bandas meio esquecidas dentro do pop. Uma delas é o The Dandy Warhols, mais conhecidos pelas brigas com o vocalista do The Brian Jonestown Massacre (Anton Newcomb; ia fazer a piada com pente, mas desisti) e o Modest Mouse.
Minha relação com eles começa pelo nascedouro. Issaquah é uma cidade de 40.051 habitantes. Hoje, dia oito de agosto, você poderá fazer caminhadas de arte com música e também assistir a reunião de formação do grupo docente do Museu de História de Issaquah. Amanhã você poderá, entre nove e onze pela manhã, participar com Forest Stewards Connor e Ilima da festa de restauração no Park Timberlake. Haverá remoção de ervas daninhas e cultivo de primavera. A prefeitura fornecerá ferramentas.
14 de julho de 1974, domingo, sol pelas laterais dos corpos. O Parque Nacional do Lago Sammamish, que se forma do rio com mesmo nome, tem sua região sul povoada com atrações que vão do pedalinho ao jetski (atualmente). Praias povoam seus 520 acres ou aproximadamente 210,44 hectares. Neste dia, um homem chamado Ted passeava distribuindo sorrisos pelos piquiniques e pedindo ajuda com seu barco. O rapaz precisava voltar para casa e estava com dificuldades para colocá-lo em cima de um Fusca.
Foi ao final da tarde que duas mulheres, Janice Ott e Denise Naslund, desapareceram sem deixar nenhuma pista. Meses depois suas ossadas foram encontradas na região oeste do parque. Essa descoberta abriu caminho para que Ted Bundy fosse descoberto e preso tempos depois.
Tanto os integrantes do Modest Mouse quanto eu viemos de lugares minúsculos com pessoas perturbadas.

recorte de jornal noticiando a busca pelo homem chamado Ted que estava no Parque Sammamish no dia do desaparecimento das jovens Janice Ott e Denise Naslund
Ficaram de fora alguns discos, mas esse boletim já tem 2558 palavras e minha tentiva de aumentar a porcentagem de abertura, obviamente, caiu por terra.
Um grande abraço;
fiquem salvos!
Fabio N.Biazetti.







