
Text within this block will maintain its original spacing when publishedO que apavorava o fundo d’olho era àquele alvorecer de agulha,
ameaçando trepanar a córnea.
Não seria problema tal coceira em maremoto.
Não fosse o medo de perder a vista: — E morrer de imediato.
Mais uma vez...
Procura marcas de sangramento: — Não vê nada.
Em desalinho no peito, levanta por imediato.
Olha ao redor, sentado.
Irá fazê-lo três vezes mais, da esquerda para direita sempre.
Pela metade, toma a resolução: — Vai ao banheiro.
Encontra o espelho, desliza a torneira e se abaixa.
Dentro d’água é um local seguro. O vazio em contemplação;
segurança ao lavar o rosto percutindo os dedos na pele.
Poros no lugar, a barba cotidiana há décadas.
Os olhos castanhos e a linha em queda do canto da córnea;
a combinar com a elevação curva das orelhas.
Nariz de mediatriz salgada levemente à esquerda.
As marcas que lhe construíram ícone, o signo definitivo.
Havia um alívio ao contemplar a masculinidade pela manhã.
Ele, referido objeto pelos próprios caracteres.
Contudo,
ao levantar o rosto do mergulho
resvala na questão: Por que agulhas ainda ressoam em seu olho?
Levemente, agora.
Clínicos ausentaram respostas,
exames entregaram marasmos;
respostas negadas eram casulos de cacos.
Calar a verdade era algo impossível;
não merecido ao seu entendimento.
Corpo masculino em seu ápice físico;
tinha certeza: Não seria um mísero olho,
contrário a verdade do mundo.
A dor é conduíte crônico em que a eletricidade passa sem trégua.
E morar com boca no asfalto era horrível,
contudo, acostuma-se com tudo.
É possível até sonhar;
mesmo que sirenes sovem agudos aos tímpanos,
ou hélices laminem seus escalpos.
Passam dias enquanto o signo segue intacto. É o que pensa.
Levantou-se através dos depois, a vida lhe seguiu.
Caminha através dos cômodos;
seus pés enlaçados pela borracha. Um copo d’água, um vaso,
a descarga seminua, escovação, a pasta pela metade; outro mergulho.
Torneira acalento no rosto, respira. O olho fresco tal fractal de capela;
leve percebe tudo estar no lugar. Como deveria.
Serve-se d’outro copo, desliza até a janela do escritório. Abre-a.
As folhas da plantas sussurram brisa embebida em poluição.
O mercado em frente abres suas cortinas,
há uma música de picadeiro ao fundo.
Um caminhão em término de manobra expande seu espiráculo,
o som pressiona o poste as lágrimas.
O copo d’água em sua mão resvala uma risada. Demora a perceber.
Há um pequeno sorver de sangue na aresta da janela.
Sinal de fuga apressada. Tal ladrão ferindo-se em cacos de vidros,
ao tentar romper violenta lembrança da sua inexistência:
— No cotidiano da vítima.
Ele não percebe a marca
Ela implora percepção.
Ele deixa para trás a cena da vida.
Como tantas outras que simplesmente abdicou de viver.
Não precisa delas, afinal são falsificações;
medíocres enquadramentos de um tentar conivente.
Esparsas mentiras coletivas.
A vida, enfim.
Nesse momento de certeza maquina o de sempre:
Sumário de si mesmo a estabelecer um quadro hipotético desejado.
Determinação sobre o signo através de sua representação:
— De mais ninguém.
Nunca pela construção de uma ideia preconcebida. Nunca!
A vida conectada apenas ao seu fundamento e concepção;
deixa-a então para trás sem arrependimento.
Como sempre deixou.
Desenganado pela abstração matemática a impelir sua cegueira,
desconhece a involuntariedade líquida que não é sua.
A cabeça, até então serviçal encefálica,
puxar-se-á involuntária por entre a força de uma gramática pura.
Seus olhos arrancados do cartesiano em direção à janela, pegos pela surpresa,
não interpretam o sangue deixado para trás nas bordas e na tela de proteção.
Mas está lá, imperativo.
Vivo.
Ele olha; não enxerga, mas vê.
A empáfia do sangue rompe o silêncio, atravessa o inexplicável.
Em voz alta diz; como é possível isso. Como chegou ali?
Menos pelo sangue,
mais pelo desmonte da plasticidade perfeita do cotidiano:
A gota malabares perfaz três curvas antes de disparar um mortal do trapézio,
que nada mais é que o losango da tela mirando a janela do prédio vizinho.
Sem rede de proteção, alça os braços e perfaz um voo calibre.
Ele enxerga, mas não olha.
As hemácias,
serpenteando pelo trapézio envolvem o plástico industrializado.
Obrigam seus olhos a entender que algo transpôs a barreira da tela;
deixou para trás um pedaço do que lhe fazia inteiro.
O signo de um objeto a querer libertar-se;
desabalando-se escapou de seu interpretante.
Preferiu a tentativa de morte reinterpretá-lo, a permanecer preso.
Uma fuga, reflete em voz alta.
Seguiu seus dias de normalidade centrada.
Nada acontecia que não fosse a exata cópia do antes.
Acordar, mergulhar, escovar, olhar.
Os sons em bálsamo calendário do ser homem.
Tão exato que inexiste a possibilidade em tornar-se tronco de árvore,
caso encostasse as mãos nalgum caule.
Tudo calculado.
A conquista de sua posição sempre foi assim. Método.
Servil ao método. Viril ao método. Dono do método.
Destroços colocados em linha reta.
Ruas desertas do encéfalo envenenado pelas relações familiares limpas:
Com cotonetes e alvejantes.
Tudo milimétrico.
Prevenido e catalogado. Como fórmula.
Uma engrenagem em propósito máximo:
Transformar os restos em um homem, repetia suas misantropias.
Longo anos, sem jamais adicionar algum desvio.
A certeza da minha masculinidade, afirmava ao espelho.
Um completo trabalho operacional de ângulos retos,
equiláteros e suspensões de querer repassadas como orçamento férrico.
É uma estrutura viva, repetia.
Após anos vivendo em apelos desavisados,
desajustes e desilusões,
o momento que entendeu a performance como busca,
um labirinto cuja bússola possui, viu-se homem.
E homens não se perdem.
Calcinar músculos, fotos e frases tornaram-se regramento.
Descobriu-se inteiro, sem a menor aresta de dor. Apenas certeza.
Um pesadelo.
Outro dia.
Após suores noturnos e desavenças com seu relógio biológico.
Cambaleia seu alvorecer ao tentar chegar ao vaso.
Copos imensuráveis de água. Mais pesadelos.
Sonhos com uma árvore.
Mãos tornando-se cascas.
Outros dias. Mais episódios. mais pesadelos.
São esporádicos ou serão deixados para trás, repete a si.
Não será a involuntariedade dos sonhos a me guiar;
dissolve a certeza em falas consigo mesmo. Resoluto.
Outro pesadelo.
Acorda destroçado.
Quase sem forças recolhe os pedaços febris espalhados na cama.
Queimados como corredores velocistas implodidos. Não se levanta.
Arrasta-se pelas molas do colchão. Espirala-se às hastes férricas. Moído.
Dissolve a epiderme em cada curva; molas rangem os dentes.
Chega em um só plano paralelo ao chão. Incognoscível.
Sua única percepção é tentar salvar-se no banheiro. A pia salva vidas.
A privada socorrista, sua casamata.
Que lhe encaixa como uma mãe aninha o filho.
Ali buscava o desespero.
Escondido onde ninguém lhe alcançaria.
Seguro de si, ali sentado na caverna.
O banheiro escuro de portas fechadas mesmo que morasse sozinho.
A masculinidade nua,
tentando recobrir-se de poréns,
jamais deveria ser vista.
Pseudopodasse até a entrada.
Mãos sustenidas sustentam todo segundo do escalar o batente.
Unha por unha, sobe,
falange por falange até alcançar o ponto de sustentação do tronco,
cujos joelhos possam orar em pé.
À borda do vaso chega.
Seu desespero alado por nada lhe atrai. Levanta-se.
Prevalece o resquício do homem, ele pensa. Estou seguro.
Se esconder na privada até o ritual do mergulho.
Salta apático até seu reflexo no espelho.
Um filete de sangue escorre do olho direito; leporino até a boca.
Desespero.
Como seria possível? Soluça a interrogação.
Da mesma cor de outrora, o mesmo cheiro:
—Do salto da rede de proteção.
O mesmo sangue, pensa.
Feriu-se no móvel lateral durante um desses pesadelos fronteiriços.
Seria essa a versão.
Não existe outra, afirmou.
Um trecho de papel higiênico navega pelo estreito da córnea ao lábio.
O atrito entre o papel e a pele guincha;
como um porco e seu pescoço cortado.
Ele, em perfeito controle, aos poucos desespera-se.
Esse som arremedo de dor fina não condiz com seu mascus.
Impossível! Grita a intenção direitamente ao inconsciente.
Entretanto o sangue escorre, e novo.
Insiste permanecer vivo. Até descer à boca.
Forçando o gosto da sua presença.
Um objeto sem possibilidade tríade. Único em si mesmo.
Como ele, porém inescapável.
O sangue.
Ele, inalcançável como sempre;
De certeza inabalável.
Seus reflexos raptados, os movimentos são descampado sem vento,
em que se vê um filete leito de um rio a desaparecer.
Suores seguem congelando seu pescoço.
No quilômetro mil e duzentos, no fosso de sua garganta,
sente um refluxo.
Expele em jato denso esbranquiçado uma ressonância paradoxal.
Como aquele perfeito corpo sangra?
Não se move pois nega o susto. Não se move.
Não se move pois erra o ritmo. Não move.
Não se move pois pois pois pois pois...
se esquece. Não se move.
Não. Não pode se mover pois nada disse é real, ele reclama.
Duas horas imóvel. Pernas ressentidas.
Apagam tremores a pancadas. Axiomas cristãos lhe dopam.
Pensa no tabaco búlgaro que ganhou de presente.
Outra amizade jogada fora, pois ele não se move.
Dissolve o enlace e tentará rastejar pelo chão.
Há esperança no homem. Escorre. Vai alento pelos tacos.
As mãos puxam recantos da madeira. Unhas rangem,
como se dobradas fossem; sente serem de um molusco.
Dobram-se até a falange distal.
Os pés empurram o tronco pelo chão.
Segue;
Graduações de um quadríceps paraplégico ressoam sobras.
Consegue engatinhar como lodo.
O sangue ainda escorre; pelas dobras.
Já no alcance das cadeiras,
ensaia uma extensão. Força as mãos.
A cadeira cospe lascas.
Ele então se sente seguro o suficiente.
Solta um urro animal.
A masculinidade aos poucos sente regressar
As unhas, tectônicas queratinas alastram seu peso em pé.
—De novo um homem. Crava, por entre o pequeno tracejado de dor.
A mesma que apavorava o fundo do olho. A mesma.
Não se importa, ei-lo inteiro de novo.
O horizonte de promessa avança sobre o cérebro.
Já não é mais aquele resto sentado na borda do vaso. Nunca mais.
Se move. Um índice. O corpo de uma estátua antes apenas com pés.
Uma tríade fechada em si mesmo.
Ao ensaiar o primeiro avanço. O olho volta a sangrar violentamente.
O fio até o lábio agora é barragem de ferida aberta. Denso.
Ensopa a boca e quase lhe afoga.
A dor no fundo do olho tal um passo dentro da órbita
Tudo o mesmo signo. Dor, passos, passos, dor, agulhadas, passos, dor.
Solavancos o levam até a janela exposta da sala,
de onde é possível ver toda sua idade pelos rejuntes.
As memórias embaçadas em seus vidros denotam uma vida inteira sendo objeto.
Para ele, nada representa além de uma estrutura. Interpreta, pouco,
a abertura como uma tríade além de nada. Não percebe porém,
a janela não ser janela, mas sim espelho plano.
A rede de proteção, cercando o plástico das plantas penduradas,
tem uma abertura impossível. Uma ferida aberta que a rasga ao meio.
Mãos sonharam com força.
O polistireno a desistir do contrapeso, morreu.
Uma abertura tão determinada que ainda sangrava.
Uma vez mais, o sangue recobre o acordamento. Quente. Livre.
Algo escapou.
Impossível, afirmou para si mesmo. Nada escapa.
Nada tenta fugir de mim mesmo. Eu sou meu ícone indivisível.
Jamais plausível seria tal gesto. Nunca. Nada escapa.
Entretanto estava ali.
Sem revés, a ida. Ilíada.
Incapaz de perceber seu semi desfalecer,
pois era preciso performar, imóvel permanece.
Os pés posicionados âncoras. Impassível.
Como se fosse espera — Que chega.
Um estalo tal tiro de trinta e oito ouve.
A pálpebra expande,
dos olhos nascem braços através dos cílios.
Com seu olho esquerdo,
enxerga a recente mão apoiar-se na base nasal.
Os dois membros superiores do olho agora expostos por completo;
estendem libertos os dedos, alcançam as bordas da cavidade.
Buscam mover-se por mais ângulos, o olho perfaz círculos. Longos.
Ele estático, aos poucos estrábico enquanto a córnea passeia.
De um lado ao outro, em cadência leve. Como pisando numa borda.
A córnea no limite da pálpebra tal fosse um trampolim, espera. Volta;
até o local mais fundo dentro do olho. Testa os limites de seu espaço.
Os braços cada vez mais fortes, agora forçam a cavidade. O osso move.
Ele sente os estalidos das trabéculas. A córnea agora parece ter pés.
Apoiados no ponto mais longo da retina. Os braços testam seu limite.
Movimentam-se como fossem aspirar um impulso. Esticam-se.
Até o limite do além máximo. Os pés alentam energia acumulada.
O chão ao redor do corpo dele treme. Braços agarram as bordas.
Resolutos. Os ossos ressoam.
Ela salta.
O impulso é tão forte que seu corpo de homem é expelido para trás.
Cai inerte na cadeira ao lado.
Consegue vê-la agarrada à tela de proteção.
Os braços intermitentes apoderam-se das fibras plásticas.
Território tomado pela visão.
Ele percebe que o nervo óptico,
ainda atado ao olho descreve um cordão umbilical:
— até o interior da cavidade ocular.
Todo movimento dos braços ou da córnea move sua cabeça.
Ele, não tem controle.
Apenas evita qualquer chicote cervical a tentar torcer seu pescoço.
Na tela de proteção as conquistas expandem-se.
Braços escalam até a parte superior da rede.
O nervo estirado até seu crânio,
como corda de pular criança.
Um puxão mais forte, seu corpo desloca-se à frente.
Ela percebe estar ainda conectada ao corpo.
Pendura-se em uma das mãos; agarra um trecho do cordão.
Entesa-o até o quase o limite.
A cabeça avança, forçando o corpo uma vez mais ao andar.
Sente o fundo da cavidade ocular quase arrancada e,
por semi cerrados momentos, o homem olha a córnea tal um espelho.
Impossível imagem na rede de proteção, olhando-o de volta.
Sua validação como existência agora dependia dela. Existia;
mas somente pela validação daquela surrealidade.
Validação e pagamento. A córnea o encara com desprezo.
O seu desprezo. O pedaço do cordão ainda em suas mãos;
o exibe ao homem. Comprova o controle.
Cria uma boca e mastiga o nervo óptico.
Ele sente o peso de milhões de agulhas perfurando o fundo da órbita.
Contudo, a córnea não o deixa escapar. Segura o cordão com força.
A ocular adversária usa um pedaço do mesmo nervo,
atrelado como cauda, tal um par de pés.
Equilibrando-se na rede enquanto mastiga a ligação.
Disseca-o vivo com a boca recém nascida. Triturará o tecido.
Até conseguir penetrá-lo por dentro com o punho,
e depois com toda a extensão do braço.
Plácida, agora tem ambos membros superiores dentro do nervo.
Expandem a luz lentamente. Ele sente uma dor tão intensa,
que involuntariamente urina. A córnea o tem apenas reflexo agora.
Seu objeto outro. Ela não é mais parte de seu índice, ela é o índice.
Se ajeita com a cauda na tela de proteção;
afasta um pouco mais a distância entre os braços.
Sua boca cospe líquido vítreo por dentro da abertura.
A lubrificação deixa-o mais maleável.
Retoma então outro impulso. Voa;
na direção do quase inteiro corpo ofegante pela dor.
Estica a pele do nervo ao máximo;
braços trêmulos pela força e dentes cerrados.
Pousa violenta na mandíbula.
Leva o cordão a descrever um arco acima da cabeça do homem.
No mesmo segundo:
A abertura do canal nervoso é encaixada no rosto dele,
como uma balaclava mal colocada.
A córnea começa recobrir todo o corpo com o nervo.
Outro escarro vítreo espalha-se no interior do canal,
que agora parece ter a textura de uma ecdise úmida.
Ele ainda respira mesmo o tecido em seu ombro,
em expansão contínua por entre a força dos braços oculares.
Quanto mais em contato com a pele,
mais tornava-se uma segunda camada viva.
Trações inevitáveis o recobrem até a cintura.
Pelo canto do olho baixo, consegue ver as veias dos braços,
saltando enquanto puxavam o tecido na direção de suas pernas.
O nervo enlameado de líquido vítreo inicia uma vida própria.
Após cobri-las,
une-se num vinco central alinhado ao relevo das coxas.
Formando por segundos o desenho de quatro pernas.
Ao juntarem-se de uma vez por todas,
sente uma pressão nos joelhos de quase quebra.
Alinham-se como patas de flamingo.
A córnea aos seus pés,
admirava todo o corpo recoberto pelo nervo.
O homem sente no fundo da cavidade orbital vazia,
seus novos batimentos cardíacos.
Mansos, atonais e melódicos.
Ela escala pela nova pele,
ao encontro da cavidade vazia.
Acerta a cauda descrevendo um totem em riste.
Entressemeia o fundo.
Ele percebe toda nova pele movimentar-se,
enquanto o pressiona mais ainda.
Seus novos braços criam pétalas metafóricas agridoces,
como de uma recém nascida flor. Exalam alvorada.
Ele agora está plano.
Não há apêndices, nem cadafalsos signos que demonstrem como ele é.
Apenas o nervo óptico recobrindo todo o corpo.
A córnea então deixa descer saliva em quantidades desenfreadas.
De espessura Nevanac alcança o baixo abdômen.
Abre-se então no hipogástrico uma forma curva,
entre as duas cristas ilíacas. Como um sorriso.
O corte solta as bordas,
o tecido do nervo aos poucos recobre internamente o espaço,
formando uma bolsa.
A córnea secreta mais densidade.
O homem em horror percebe seu pênis iniciar uma caminhada;
invólucro adentro.
Todo membro, a estrutura que fazia dele o que era,
em direção à bolsa.
As bordas do corte perfazem um leve afrouxar;
o corpo hipnotizado aos poucos escala por entre o tecido.
Desce verticalmente e deita-se ao fundo.
O corte fecha e tranca-se como marsupial.
A nova pele inicia um novo molde.
Outra estrutura.
Resoluta, a córnea respira um renascer.
Ele ainda em horror apenas consegue pensar,
nunca mais seria o ícone de sua masculinidade,
revogada a ficar trancada dentro de uma bolsa.
O corte retorce, constrói aos poucos um origami com novas lateralidades, estruturas pediculares, hastes torcidas como estruturas de escandeias. Um cheiro de xilema translúcido percorre a sala; ele tem a certeza de ver a formação de cascas em sua cintura. A bolsa aos poucos deixa nítida sua nova forma de orquídea. Velada; pétalas quase acrílicas. Uma coloração vermelha central em raios simétricos, divididos ao longo de seu comprimento; tornando-se rosa brancos, como um ipê. O terror só não lhe é maior pois no momento em que a flor nasce, suas escápulas descolam-se do tronco. Ouvem-se os estalidos ósseos por quilômetros. Elas dilatam. Expandem cartilagens articulares do ombro, ao ponto de não terem mais espaço. Ele não reage, há apenas o horror. Sua nova pele ganha a coloração da orquídea, rompe fibras e sangra. A córnea lança os braços além da cavidade ocular e agarra sua cabeça, mantendo-a estática. Pressiona a coragem que lhe falta. Escápulas expandem-se; ardem infinito. Aos poucos tomarão o formato de asas menores. Seus pés ficam nas pontas enquanto os braços apertam mais a sua cabeça e ordenam o silêncio. Foi nesse momento que ele soube, de uma vez por todas, que sua representação jamais seria a mesma.
