
Quando entregou a revista nem ao menos usou as mãos. Foram terceirizadas. A dona da entrega hesitante preferiu não olhar; era um pouco além do que combinaram. Havia entre eles um pré-determinado acerto:— Se o ato me perfaz constrangimento, tuas costas que carreguem.
Na maioria das vezes era óbvia a escolha.
A revista porém chegou intacta.
Título de fonte montanhosa, evidente mote.
A foto não deixava dúvidas.
Cheia de vergonha e aparentemente dopada. Nova.
Não era necessariamente uma revista; caso levados fossem seriamente conceitos editoriais,
incomensuráveis pelas três partes envolvidas.
Um in quarto que se abria em oito páginas. Em dobras.
Folha fácil aos dedos em deslize. Papel novo.
Desenhava luz com naturalidade tamanha,
que os reflexos tornavam-se brancos.
Tanto quanto a cor da pele estampada nas páginas.
Por ser recente, o brilho das folhas era chamariz.
A única materialidade que lhe foi dada era opacidade até então.
Talvez por conta do tempo.
Páginas a morrer aos pés dos trilhos de trem, sob solavancos da chuva ou soluços de vento, eram donas de um certo rancor a impregnar o papel.
Os tons desamparo eram nítidos. Seco e ocre.
Apenas abandono, tudo deixado para trás tem nascente de ódio.
Essa revista entretanto era diferente.
Sentia-se a relva da tinta;
Esperava apenas deflorar seu selo plástico.
Mas, o porém do acaso era lembrança.
Tal brilho, por mais brilho, ressoava estranho.
Enterrava memórias completas dos trilhos,a vergonha vivida.
Talvez pior até do que a vista pela flanela da mesa,
ou das caçapas de bilhar no quarto.
Ao menos as dormentes jamais foram roçadas.
A bicicleta indagava o meio fio, pés picavam o vermelho na terra seca, línguas da toiça em verde remanso e pelos guilhotina,
Pedras assimétricas, únicas testemunhas.
Andar em desalinho equilibrando bicicleta e corpo,
até encontrar o óleo.
Perfurar o medo; afundar a sonda do tronco por entre os trilhos.
Sentar-se.
Encontrar os corpos sujos, grudados pela tipografia seca.
Que o tempo escondeu como fóssil.
Presença d’alma marcada pelo desejo,
deixado à morte na beira de uma ferrovia.
Sua companhia por horas, folhas amargas.
Deixavam rastros quando separadas, restos de corpos dissolvem rebites em conexões de viagem.
Ligações sustentavam o peso das máquinas ferroviárias.Escalas de cada meia hora pausavam o viver. Troncos estendidos e um farol de aviso, percutiam a carne inacabada nos trilhos.
Ao estalarem sua chegada, era possível alcançar com os ouvidos seu peso nas dormentes. O calor antecipa eletricidade,
cartilagens dissolvem.
Canais auditivos transforma-se em caudas.
Contudo a febre se avizinha, não espera.
Era preciso afastar a roupa,
deixar as folhas mortas e as imagens moldarem seu corpo.
Elas enxergam, desejam. Evocam sua selvageria. Vida.
A única que restava. Ali, nos pedregulhos.
Ele ereto ergue-se em pé.
As sombras caem pelas páginas. Lhe afagam a pele.
Os postes de energia elétrica criam arcos.
Raios marcam o ar.
Puxam as caudas das orelhas.
Prendem-nas nos transformadores.
O corpo esticado nu.
Duro.
A cada farfalho das folhas as fotos movem-se sozinhas.
Corpos traquejam ao ritmo das aranhas do truque.
Contando números lentamente através do avanço das hastes.
A elevação o traciona ao céu. Imagens traçam outras cenas.
São agora polilocomotivas enroçando-se oleadas.
A dissolver o líquen, outrora prisão desértica.
Crucificado pelos postes, roupas destroçadas.
Apenas o retalho íntimo do elástico lhe sombreava.
Um passante ao vê-lo, notou que suas pernas suavam.
Ajoelhou-se por costume, orou. Os traços dos corpos sorriem.
Entreolham-se cúmplices. Formam funis que cobrem o falso santo.
O passante atordoado corre. O trem aproxima-se.
Todas as fotos, cada vez mais úmidas dissolvendo os espaços.
Orelhas estiradas ao máximo rangem.A locomotiva avisa.
Ele irá morrer pendurado.
As fotografias sedentas. Avançam.
Fios que o prendem aos postes. Impassíveis.
Roçam na eletricidade enquanto o trem se aproxima.
Nem ele ou as imagens irão parar,
até as páginas colorirem-se em novos sons.
Maquinaria avança. Sinal sonoro em fúria.
Páginas desgastam-se enquanto os ouvidos quase explodem.
Cada vez mais rápido, o trem irá matá-lo. Cada vez mais rápido.
Os corpos nas páginas suados atam-se ao menino. Travam. Contraem seus canais, enforcando a haste. Roçam a cruz do corpo, que ressoa pendurado. É possível ver ao longe o farol do trem. Rápido, mais rápido. O corpo por conta da fricção da celulose escarifica-se e as bordas dos arranhões suspiram travando o ar no meio do caminho enquanto o trem se aproxima e os pistões aceleram mais rápido mais forte e mais rápido e mais forte ao redor das páginas que agora conseguem ficar em pé deixando as imagens acariciarem as pernas da cruz humana quase em finalmente ao redor das línguas das fotografias que entremeiam as coxas cavalgando os pregos ao mesmo tempo o trem perde os freios mais rápido mais rápido mais rápido que as imagens enganando a cognição como se fossem catedráticas aulas sobre trens com força descomunal cavando túneis que sangram aos pés da cruz em riste que irá salivar o mar em breve por entre as dormentes nas fotografias apertando seu corpo como se fossem um torno mecânico enforcando o pescoço ao redor das orelhas esticadas ao ponto de romperem enquanto o trem chega rápido e rápido e rápido e rápido e rápido ao mesmo tempo que ele reza fervorosamente para que nenhuma das fotografias parem nunca mais parem pois quer permanecer eternamente grudado naquelas páginas naquelas dormentes naqueles trilhos da vergonha que um dia lheforamsalvaçãoejamaisofariadeleummerohomemvaziocincoquatrotrêshumdoisum.
Desentorpecido foi pelo empurrão do maquinista, completamente transtornado, pois teve que parar o trem.
Freios de emergência.
Havia um moleque no meio dos trilhos.
Calças abaixadas, braço estendido, masturbando-se.
Os olhos em pedra cavavam uma revista pornográfica velha.
Chegou antes da bicicleta em casa.
Enterrando memórias completas dos trilhos,a vergonha vivida.
Não esta revista nova, nunca.
Nunca seria vergonha. Imaculada raia era.
Envelopada redenção de abril.
Um presente de seu pai. Único em anos.
Talvez uma compensação pelo trem de pilhas quebrado, o Natal despedaçado e restos de afeto em bitucas queimadas.
A cumplicidade masculina hereditária.
Eis seu rito. Retinas paternas exalavam contentamento.
O filho jamais veria novamente essa reação.
Felicidade de quem descobre um propósito.
Finalmente, o segredo da vida em luz. Sua função como reprodutor.
O provedor alumiando galáxias,a comprovar inexistência dalgum cambalear infiltrado, como espião em suas convicções.
Fosse ele discurso libertário, emancipação de outrem,
ou qualquer ismo. Nada disso existia.
Apenas o macho existia. O macho que ele rebentou.
Naquele momento, enquanto entregava o in quarto,
era soberano,
a única saída possível perceber aquele corpo,
que tempos depois sentiria a marreta do passar dos anos no crânio,
deteriorando-se quanto mais rancor bebia,
naquele específico momento em seu ápice.
A herança.
O mascus como mágica,
reproduzido através daquela sola prensa,
àquela que nunca poderia ser suja.
Imaculada branca raia.
Oração. Desejo. Homem; Religião.
Reprodução e Força.
Deus, Pátria e Família.
O pai tinha toda a certeza.
Ser o que se é, é isso.
A chuva atravessava o encanamento perfazendo pequenos discursos. Aquela estrutura indefinida como chaminé,
mas de certeza do escoamento d’água, sempre falava.
Já há dois longos dias em que insistia o céu desabar,
o menino passava longos minutos ouvintes.
Gotas deslizavam os dentes pelo cobre moldado, os sintagmas descendestes das nuvens eram amenos,
até mesmo quando formavam líquidas colunas sólidas.
Os debates respondidos em baixo tom,
pois já recebera tapas na nuca,
quando alguém da casa o via falar sozinho.
Seguia conversando em frente ao encanamento.
Deveria obedecer os planos paternos?
Era a questão recorrente.
Seria ele primogênito da herança?
O pai depositava toda a fé em torná-lo homem completo,
não havia dúvidas.
O porém não era simples.
Havia um desejo. Esse vértice era claro. Todas as situações soavam tal entendimento. Os sonhos, as manchas no lençol;brincadeiras de família com a vizinha.Os vitros da sala, delatores dos olhos, em direção as pernas das vizinhas.A pele aureolar tocada na porta do depósito atrás da igreja,uma canção na volta para casa, a avizinhar no peito lágrimas.Por estar vivo.
Era evidente, havia um desejo.Mas era àquele?
Cobrado cada dia ao acordar. Virou macho?E aí, tá Homem?Deixa eu ver essa cueca. Nada?Você quer que eu compre uma revista de viado?Segura o copo um minuto:
Escuta aqui seu filho da puta, eu não quero saber de chupador de rola aqui nessa casa. Você viu como se faz aquele dia no escritório. Tira esse pau pra fora e goza. Macho goza. Entendeu? Macho goza!
Jamais soube definir se foi a chuva ou seu rosto em águas. Só conseguiu entender quando suspiraram aos ouvidos:Cigarros franceses, fundo da gaveta do armário, no banheiro.
As hélices do ventilador dobravam-se ao reverso, por entre a sensação morna,em que os poros dissolvem-se no óleo.
O vento nunca prefere o destino,menos ainda interceder no calor, crava aos poucos dentes atrás das orelhas,na primeira descida duma gota de suor, tão fria, movendo-se como assassino.
Aloja-se semi morta na gola da camiseta,umedecida após acordar apavorada de um pesadelo.Olhos suspensos afogando-se em lâminas,delicadamente estendendo-se até a parte posterior da cabeça.Planando por entre espinhos.
Permaneceu assim até a decisão do hoje.A casa vazia.O banheiro interno e suas chaves.Caminho traçado por seu pai seria percorrido.
O canto esquerdo ao entrar era preenchido pelo armário.Mesmo armário confidenciado pela chuva.
Por precaução conferiu o fundo da gaveta.Entendeu-se enganado.Os cigarros não estavam ali.Decidiu deixar de lado o desengano, visto estar focado em outras decisões.
Azulejos milimétricos em limpeza, uma de suas partes preferidas dentro da casa. Desenhos nem sempre bem definidos;algumas vezes pareciam dois galhos, outras duas asas.
A geometria retangular,ao meio do ladrilho era em azul corredor.Os olhos passeavam tão desavisados,que depois de alguns minutos era possível perceberem-se correndo,por dentro de um túnel feito por tardes outonais.
À esquerda, no plano circular, o vaso fingindo-se inexistente.Quase escapando do olhar.A pia da mesma cor do retângulo revelando um detalhe calculado.Simples cenário dentro das possibilidades em aberto.
A mentira da chuva não o afetou,havia uma determinação.Seu pai mandante.
No vaso sentou-se,abriu a grande gaveta inferior do armário,onde pacotes de sabonetes,toalhas e um detalhe cobram-lhe os cantos.
Enterrada como se estivesse em dormentes de trilhos estava a revista.Do seu lado, o maço de cigarros.As águas eram verdadeiras, apenas erraram o local.
Afirmativa óbvia: alguém trocou seu lugar.
Imaginar todo o cenário dos acontecimentos o distraía, perder o foco era inaceitável.Abriu a revista,calças abaixadas,encostado na tampa do vaso aberta.As pernas afastadas ampliavam o alcance das mãos.
Tudo estava pronto.
A primeira imagem quase inocente em decúbito lateral,pernas soltas e um tecido de borda ao longo dos braços.
Mais nada.
O resto dessa pele, solta. Um começo.
Dedos dos pés em encaixe aos tornozelos simétricos.
Músculos da perna formavam meia lua em traços de eclipse.
Acima,em poucos segredos,coxas conduziam seus olhos lentamente.
Tudo naquela imagem era perfeito.
Menos ele.
Nenhuma reação.Nem sussurro, nem alento, nem tremores.Apagado.Desfoliou as páginas,buscou outros ângulos.Aberturas das pernas em uma cadeira.Sem tecidos de distração.Ausência.
O corpo manipulado com tudo aquilo que aprendeu sozinho.Mãos oleadas. Cremes repassados. Nenhuma única reação.Pega a revista e abre de forma inequívoca,a foto central crucificada no trinco da porta superior do armário.
Mãos maquinarias por instinto forçam a entrada.Apertam sofreguidão para fora da pele.Sente que a fricção tornar-se lixa.Um pequeno estalo agudo escarifica a base.Leve, mas preciso.
O ódio enterra os nervos por entre as folhas do papel higiênico. Resiste por longos minutos enquanto o corpo afunda. Finalmente cede ao choro.Impossível ser homem,se nem ao menos entendia seu não funcionar como tal.Esvaziado sem nunca ser cheio,perde o olhar pela enorme gaveta inferior.
Os cigarros ali testemunham seu fracasso.Um ícone das cavalgadas do cinema,lhe atribuirá certamente algum apelido afeminado.Alcança o maço.Dentro dele uma caixa de fósforos com o nome de motel.Na frente, a marca: Gauloises Blonde.
Está sozinho.Acende um.Imediatamente lhe afaga um sorriso.Chegava uma ponta de riso,tornar-se homem como seu pai queria era impossível,mas fumar lhe parecia inapto.Tragar era um movimento quase natural.Homem ainda incerto, inescapável a capacidade ao vício.
Cada vez mais relaxado,era possível até ouvir a felicidade por entre os dentes,enquanto a fumaça moldava seu escape.O menino olha sua mão esquerda, inútil fazia poucos minutos, agora cheia de nicotina.
Contra luz, sua imagem na parede. Nitidez.Ímpeto do traço automaticamente o faz inverter o cigarro. À sombra,inicia desenhar o contorno de sua mão com cinzas.O bastão levitando seu fim, quanto mais forma a mão ganha. Seu braço, estende-se na gravidade em leves tremores. Sem querer, bate no cigarro. Um trecho de cinzas ainda vermelhas cai na pele.
Há um mínimo triscar agudo,como gota de chuva mergulhando numa frigideira.A dor de imediato reflete uma reação nas pernas. Aos poucos, a brasa apaga, com ela os tremores tornam-se inequívocos. Sente contrair os ombros e o corpo todo se move. O desenho para.
A pele toda em alerta. Traga novamente, agora com força. Arestas de nicotina expandem-se. O funeral vermelho reflete, por segundos intermináveis, nos dedos dele.Solta o rastilho em sua barriga. O corpo semi morto, floresce.
Sua mão esquerda o procura. Está vivo. Ajeita-se no vaso. O cigarro, quase morto. Inspira a fumaça como inalação. Uma brasa aviva-se. Enterra o resto do cigarro em seu pulso. Agulha incandescente,enrola-se aos vasos sanguíneos superficiais. O som da carne queimada,atravessa os ouvidos. Seu apêndice responde. Tão forte, que sente o quadril remoer o futuro. Abre o maço.
Tão desavisado de consciência que derrama os cigarros. Acende outro, traga como se respirasse alcatrão. A cinza lhe acena.Alonga-se como ele em sua mão esquerda está.Circulando o fogo ainda pelo pulso,abre uma pequena trilha em labaredas na direção do cotovelo.
O peso da escarificação enquanto o fogo consome a pele.Fecha os olhos. A lava do cigarro, leva na direção da coxa. Retesa-se tanto quanto concreto em ardência. Filtro abre caminhos. Derrete a epiderme. O sangue finalmente foge em uma bolha. Sente a gota descer como no encanamento desce a chuva.Outro trago. Cheira a restos de epiderme incinerada, refratados no ar. Ao fim deste cigarro, o enterra na virilha. Pele rasga enquanto coze.
A mão esquerda acelera como locomotiva. Pensa nos trilhos. Postes.Em suas orelhas esticadas. O símbolo aumenta de tamanho. Sua alucinação acende três cigarros de uma vez.Os olhos refletem luz. Seu punho lateja. Calor das cinzas eclode. Ele então enterra os três cigarros nos testículos. O som da queimadura lembra um chicote. Sua pele contorce, como um animal que se esconde. A dor é de tanta certeza, que sente uma gota de melaço escorrer pelo canal urinário.
Isso facilita o deslizar. Ele fecha os olhos, saliva um trovão. A quantidade não tem espaço em sua boca. Cospe na mão esquerda. Melaço, pele chamuscada e saliva.Largo como um canhão. Longo como um sonho. Deixa no testículo um dos cigarros derretendo.O segundo abrirá mais a ferida da coxa, aumentando o sangramento. Forma-se a tríade de líquidos.
Leva o último cigarro à boca. O maquinista solta os freios.Puxa todo o ar que consegue, até o bastonete tornar-se completamente erupção. Finalmente se tornará homem. Como seu pai sonhou. As cinzas mornas alcançam a derme. O cheiro torna-se azedo. Quase um delírio. Fica em pé. Equilibra o cigarro em chamas. A mão esquerda torna-se torno. Esmaga o corpo inchado, próximo da morte. Sua glande cerra os dentes até trincá-los.
Nunca mais em sua vida toda,sentiu o prazer que teve ao impulsionar o cigarro dentro da uretra.
Uma lâmina com a espessura de linha,formada por cristais de gelo flamejantes atravessa o canal. Ele sente cada pedaço de seu símbolo inchar-se, ao mesmo tempo que explode. O cigarro avança. Pela metade, os cristais derretem aço. A sensação é que há uma faca enfiada e retirada, no mesmo timbre de sua mão acelerada. Aumenta o ritmo enquanto a carne evapora.
Seu corpo cambaleia. Ele geme alto. Os pais que entravam em casa ouvem. A mão não existe mais fisicamente. O cigarro, enterrado em seu canal. O filtro desfaz-se em fogo.
No fundo de sua caverna uma imagem. Aos doze anos, enquanto tentava usufruir do seu poder de voo, correndo por entre a grama da manhã, sentiu-se seguro. O bastante para tentar saltos maiores. Como os cinco degraus de concreto na escada da quadra. Alinhou-se pela lateral, ganhou velocidade, estabeleceu o pouso e alçou voo. Durante os cinco segundos que seguiram-se, seu corpo expeliu todo o líquido que podia. Facilitou assim a permanência no ar.Deixou um rastro, liquefeito escorrendo pelo calção. Nem ao menos sentiu o estilhaçar do queixo e joelho no concreto. O que ficou foi a expulsão da água libertando-o.
Abriu os olhos. A porta do banheiro aberta. Seu pai em horror. Sua mão esquerda coberta de sêmen, sangue e água. Os olhos do menino repletos. As feridas pulsavam com o batimento cardíaco. O cheiro de cigarro e pele queimada o fez salivar uma vez mais. Seu pênis foi dilacerado em três partes quase iguais. Ainda ereto.
Oferece ao pai o desafio. Não há retorno. Um vazio.Nem ao menos percebeu o filho voar do vaso até à porta, depois de levar à boca uma quantidade enorme de esperma e sangue.
Ainda aterrorizado não tem reflexo, quando o filho começa a lhe enforcar. O menino o derruba, aperta os polegares ao redor da traqueia. A boca do genitor não consegue permanecer fechada.Mais força nas mãos, a glote sucumbe.
Nesse instante, o novo homem feito libera a mistura. Dentro da garganta paterna. Escarra o sêmen queimado, segura com as mãos a boca aberta. O pai aos poucos afoga-se. Ele força o último fio de saliva e libera a boca do pai. Fecha seu nariz. O pai resiste. A voz do filho lanceta seus ouvidos:
engole. engole tudo. um homem goza, não goza? se goza, então engole tudo seu vagabundo. engole todo o homem seu bosta. engole. tá sentindo o quanto você me tornou macho? engole tudo. engole até você sentir minha carne queimar teu peito. engole tudo.
Aterrorizado, o pai esquece quem é.Seus olhos tornam-se vidros.Opacos. Não consegue verbalizar nem ao menos um grito. Não chora, nem ri. Desaparece por entre o chão sujo.
O antigo menino sobe as calças, lava as mãos e sai. Leva as chaves de casa junto ao dinheiro que achou na mesa. Anda até o centro da cidade, caminhando pela linha do trem. Passa pelas escolas,pelos ipês,atravessa o mundo como nunca antes. Entra em um bar. O dono acena com a cabeça:
O de sempre?Sim o de sempre. Dessa vez me traz um maço de cigarros franceses.
