Este era o segundo texto. Será o terceiro.
Depois de mais de uma semana pensando sobre a introdução do boletim anterior, é possível endereçar toda àquela discussão inócua sobre vergonha de criação utilizando alguns argumentos mais embasados do que simplesmente um choro raso.
Pierre Bourdieu em suas incursões sobre literatura descreveu uma nova forma de entender a criação. Concebia que um autor, e sua obra, não eram um produto da elevada espiritualidade, muito menos frutos da inspiração do artista -a viver isolado, mesmo em sociedade- que criava suas obras na sombra da inspiração e das musas.
Seu ponto de partida teórico: obras literárias são manifestações ocupantes no interior do campo formado por diferentes grupos sociais, com distintos posicionamentos e em disputas de espaço e poder. Define então o termo chamado habitus, que apesar das abstrações imensuráveis, me leva a refletir de forma mais concreta sobre as pendengas enfadonhas cognitivas. Para Bourdieu, o habitus trabalha nesse sistema de criação:
Sistema de disposições inconscientes que constitui o produto da interiorização de estruturas objetivas e que, enquanto lugar geométrico dos determinismos objetivos e de uma determinação, do futuro objetivo e das esperanças subjetivas, tende a produzir práticas e, por esta via, carreiras objetivamente ajustadas às estruturas objetivas (BOURDIEU, 1994, p. 26).
Para Pierre, a função do habitus é tornar invisíveis relações objetivas relacionadas às práticas, que reproduzem certos esquemas de pensamento e ações. Funciona como uma ferramenta de mediação, na apreensão de homogeneidade nos gostos e preferências de certos grupos com a mesma trajetória social.
Não obstante, essa definição de habitus não pode ser considerada uma memória sedimentada dentro de toda a sincronia da língua. É um sistema construído continuamente. O professor Vinícius Lima em sua tese de doutorado sobre Philadelpho Menezes, irá definir que na contemporaneidade, essa formação é marcada por transformações nas instituições e relações, consequentemente criando novos habitus e um novo sujeito social, não mais baseado em estruturas seculares, mas com influência direta dos avanços tecnologicos.
O que me leva a pensar que se escrevo, é porque antes mais nada faço parte de uma estrutura coletiva. Sou parte de uma estrutura social que ao longo do tempo sofre influência dos fatos e passa por experimentações e sondagens coletivas. Um indivíduo inserido nessa relação entre a dialética das situações cotidianas e o habitus.
Isso com certeza é uma explicação mais lógica e racional do que um ai ai ai, pra que escrever?
O que obviamente não invalida o raciocínio anterior;
só o torna mais idiota.
Enfim, divagações
Segue uma crônica ; Em verdade segue outro arremedo capítulo de A Cria do Oitavo Dia, o segundo livro pelo menos essa é a ideia original. No meio do caminho de uma indecisão existem percalços. Uma coisa ficou certa:
— Agora pelo menos sei a estrutura do livro.
E se tudo ocorreu de acordo com o pensado, um novo poema.
coberto por uma Brasilit.
cimento em cal alva
de um tanque;
estava dentro
de corpos mortos
que avistei
A primeira coleção
Todos cor de caule.
Daquele ponto em diante
seria impossível empurrar
uma nova desistência
-com a barriga-
para d
e
n
t
r
o
d
a
t
r
a
q
u
e
i
a.
O que ao longo do tempo,
tornou-se plataforma mecânica de pesadelos.
Toda vez que desistia do desistir,
o profundo cérebro vingava-se.
E para além da clausura do terror inconsciente,
depois do acordar,
ressoava tal sirene no último alcançar auditivo.
O cheiro de formol em me trô no mo,
tentava sair do caixote.
Inicialmente apenas seus dedos eram visíveis
logo depois uma das mãos empurrava a telha.
Nesse ponto lembrei do vick,
que como toda lembrança de salvação
permaneceu enterrada no esquecimento.
E além de tudo chegou atrasada,
já que nesse momento,
o odor dos mortos rodopiava pela rachaduras.
Atrasos caminham à eternidade
em vias construídas por pequenas dores;
acumuladas ao longo do tempo entre
a coluna lombar
e o osso sacro.
Acompanham café de prensa francesa,
nos olhos cansados
orando pelo afastar da cervical;
para olharem enfim ao horizonte.
Que na maioria das vezes navega entre o rosa e laranja,
marcando o trabalho das estrelas que não são encontradas no céu:
pois carregam restos de sonhos através do universo.
Essa não seria a primeira vez
que a morte
atravessaria meu caminho.
Não é certo dizer que temos uma relação,
pois ela não me conhece de ângulo tão íntimo.
O que não a impediu de algumas aproximações e acenos.
Até mais carinhosos,
outros violentos. Todos com nossas peles
a aferir temperaturas,
tremores e amor na mesma medida.
Minha saudade morna é interrompida.
A mão do cadáver desenha
u
m
a
f
u
g
a
Outra vez
outra forma me fazia um convite.
Seu braço iluminou-se em formato de túnel.
Sinalização.
Foi por dentro dele que mergulhei pelo formol.
O cheiro ardia um pouco minhas córneas
porém o sangue que escorria pela laterais dos olhos
devido aos vasos hipertensos da acidez
ajudavam como bálsamo.
O oceano Aldeído
forrado por pedaços de corpos.
Alguns grudados em minha boca
auxiliavam meu respirar.
Quanto mais d
e
s
c
i
a
mais meu ar liquefazia.
uma válvula esperava ao fundo do tanque
No ralo de escape, sentido horário, dois giros e meio. Escorro pela escotilha. Uma escada de fuga nasce. Ao final dela, meus pés tocam lençóis iluminados indiretamente pela pequena luminária de polistireno.
A morte me olhava
pelas órbitas
de uma coruja
repousa suas asas em
uma casa de cogumelos
O chão
formado por pedras. No caule,
mais escuro,
uma lâmpada morna. Sem folhagens.
Apenas uma casa. A coruja,
de óculos pelas narinas, esperava.
Os olhos de horizonte peçonhento.
Os meus, sempre fixos por entre os dias
a tentar contato. Nunca revelou empatia.
Ela sempre imóvel;
e no apagar do abajur deixava rastros do horror.
Tentar em demasia era um problema
visto apenas conseguir a existência do nada.
Trabalho cíclico em ansiedades e desistências
a forma da morte:
era construção do vazio.
Com roupas de salva vidas
num caminho costurado
a giz e papel cartão grosso
nos tecidos deixados
rasgados
no quarto.
o rastro mais alucinatório daqueles dias
sobre qual morte seria a pior
era o pavor de minha cama violada
por cobras e peçonhas enormes.
como morávamos na beirada do rio
em um bairro de subúrbio perto do mato
a presença delas pelas redondezas
não era algo fictício.
quando dei por mim
na escuridão
a dobra do lençol era a exata forma
de uma cabeça de cascavel.
se movia vagarosamente
escondia sua língua
nas sombras.
horror de tamanha monta
que não conseguia gritar
até sentir escamas passando
por entre minhas pernas.
Imensurável
foi a vocalização
do desespero.
Nunca urrei
assim
na
vida.
Talvez apenas quando fui reanimado contra minha vontade.
Só se iluminaram os motivos do alívio no rosto de minha mãe,
ao entrar no quarto arrumando a roupa, escondendo o braço,
muito tempo depois.
Pesadelos tomam diferentes formas.
No tanque de formol abri os olhos
um cadáver me sorriu
com olhos de coruja
a pele cor de caule.
A ideia era retirar os dois novos poemas, porém, deixarei somente um deles neste boletim.
Ei-lo:
Enterrado no peito permaneceu o tiro
que nem ao menos nasceu de algo
apenas surgiu
por definição tornou-se sólido
mais até do que a própria vida
visto esse balaço permanecer correndo
entre os pulmões e a garganta
pelo resto de seus dias.
Ali, naquele dia definiu-se o ódio
a gratuidade da violência
o cadafalso da inaptidão
contados, foram exatos quinze segundos:
Um enquadramento plano dos olhos
a diagonal das bocas semi cerradas
contemplando-se como duas espécies
que encontram-se após um longo período de migração.
O braço direito semi coberto
de um tronco visível por entre a iluminação
da luz diagonal do meio da manhã:
a criar um espaço entre o meio fio e os pés
preenchido por um vapor de sombra
expirando tal qual uma marreta.
Lance certeiro
acertou o peito ao meio
demarcou uma vala no esterno
que ressoou por dentro dos pulmões
abrindo caminho a um poço:
sem corda ou balde, muito menos água.
cheio de concreto.
Lance exato
esquadro de uma tempestade perfeita
que atravessou a maré da infância
devastando por completo o continente
redesenhando todo o território
deixando como herança apenas o deserto
de reborda salgada como uma decapitação.
Por entre medos alheios
percorro minhas próprias sombras
medos sem dono soltos
os quais me apoderei
como único futuro
de uma escola escondem-se
través azulejos sujos
telas azuis
telefones transversais
um deslocamento do ódio
para dentro
tentativa de fuga
pela fibras do compensado das carteiras.
Diante do desespero do mundo
só resta encher o coração de vida.
O cheiro do entulho queimado
forma um triângulo goethiano
de cores em minhas artérias.
Um andaime infinito.
E antes de me despedir…
Andando pelo novo ecossistema, descobri outros moradores.
Fiquem bem.
Um grande abraço.

