Figura I.
BARBOSA, Mateus. MUÁ, Dani Xavier. Imagem. 2023.

A ideia dessa nova seção dentro do laboratório é escrever sobre os tópicos que permeiam minha pesquisa como autor. Aqui estarão trabalhos da graduação e do grupo de estudos de Literatura em Campo Expandido (LICEX). Serão intercalados com os experimentos, micro ficções, contos e poemas já recorrentes nesse espaço.

O primeiro texto fala sobre literatura e produção textual baseado no livro “Leitura, escrita e produção oral: propostas para o ensino superior”, das professoras Niura Maria Fontana e Sandra Cristian Porshe. Uma pequena resenha sobre aspectos da conceituação de texto e leitura.

Para entender a produção textual através da leitura, é preciso compreender os pontos que interseccionam essas duas matériasm através do estudo conceitual dos dois tópicos.

Inicialmente é preciso perceber a leitura como uma forma de pensar, pois induz o leitor a fazê-lo, ao aumentar sua capacidade de entendimento e a reflexão criteriosa do mundo. Um leitor proficiente, por meio da leitura, ampliará suas habilidades e competências na aquisição e construção do pensamento. Utilizando o conceito das sete estratégias de Person (1985, apud Araújo 2008, p. 196) podemos dizer que o leitor no processo de leitura deve fazer inferências, elaborar perguntas, ativando o conhecimento prévio, enquanto determina importantes ideias, através do monitoramento e correção da compreensão; desencadeando assim o poder de sintetizar a leitura em produções textuais.

É preciso lembrar que, o produtor de textos é entendedor de seus procedimentos de leitura. O enriquecimento da memória através da leitura é o ponto de inflexão que se relaciona com a produção textual, pois quem tem algo a escrever através de textos escritos ou falados, possui clarezas de ideias sobre o assunto que discorre por meio da leitura, visto o processamento de informações carregadas no texto, acarretar o conhecimento.

Considerando os conceitos de leitura de Derrida, o ato de ler é uma ação infinita, pois seria impossível tecer a totalidade de um texto; é preciso ler, reler com cuidado, fazendo com que o ato da leitura seja sempre um horizonte em afastamento perpétuo, um futuro que nunca chegará ao presente. Por isso a importância seminal de uma leitura e releituras, já que o texto não possui significados estáveis.

O que entrará em conflito com a definição de Saussurre que a língua é forma e não substância. Derrida discutirá essa premissa, pois para ele a forma não é estável, tão pouco a substância é plena. Logo, essa oposição não se sustentaria porque as noções se enlaçam.

A substância se sobrepõe; é componente do mesmo fenômeno.

Para Derrida, nunca nos comprometeremos com essa verdade, pois todos os erros das terminologias e todos os erros na designação de coisas da língua, partem do pressuposto que haveria uma substância no fenômeno linguístico. A teoria da desconstrução do texto lhe dá aparato formal, visto preconizar que o mesmo deva ser descosturado, camada por camada, expondo seus significados não declarados.

O Dialogismo bakhtiniano, conversa com os preceitos derridarianos quando o conceitua como elemento constitutivo a linguagem, regendo a produção e compreensão dos sentidos; a fronteira onde o eu/outro (ou o enunciador/leitor) se interdefinem, se interpretam, se fundem e confundem-se. Deixando clara também a dimensão histórico ideológica na construção do projeto em torno do sentido da linguagem.

Como delimitar então o escopo do que é a leitura?

Para responder essa pergunta, apresento os conceitos iniciais sobre níveis de leitura:

  • Leitura elementar: assim chamada em obras tais “Como ler Livros” a etapa de alfabetização de forma geral;

  • Pré-Leitura ou Leitura Inspecional: que preconiza o saber da obra antecipadamente e sobre a maior quantidades de aspectos possíveis, extraindo o máximo de informações possíveis como descreveram Adler e Doren (2011), seja folheando o livro sistematicamente, perfazendo a leitura de capas, contracapas, orelhas, biografias, introduções, prefácios, e até resenhas críticas;

  • Leitura Analítica: que acontecesse no momento em que o leitor exige o seu melhor físico, tempo e local para a realização da leitura. O momento de aprofundamento da tese, utilizando um período de tempo que dê ao leitor atenção total ao ato. Cria-se um horário, ambiente, busca-se materiais que auxiliem na tomada de notas; o momento em que o leitor anota o que achou do significado do que está lendo, fazendo com esse trecho um ditado interior que culminará na criação da paráfrase do leitor. O texto original e essa paráfrase completam o ciclo de leitura. Uma fase que requer monitoramento, concentração, fidelidade, ajuste de velocidade, tolerância e paciência.

É preciso então, entender que o trinômio ler/pensar/escrever adquire concretude através da palavra no processo da comunicação, criando pontes de interação; contudo, existe a possibilidade (por conta do potencial funcional da palavra) da formação de barreiras que impedem o processo de interação, pois a palavra pode ser mentirosa e superficial, o que ocasionaria um problema no processo de leitura. Assim sendo, segundo Slavutzky ao citar Montaigne (2007, p.13) o desafio não é só de quem emite o discurso, mas de quem ouve; a palavra é metade de quem a pronuncia e metade de quem escuta.

Por isso se convencionou uma proposta de Metodologia Analítica de Pensar Literatura, através do método dialético interativo VJA (Videre, Judiciare, Agere), também conhecido como Os Três Saberes ou Três Olhares, e consiste em linhas gerais apreender os elementos significativos do texto, colhendo sinais e suspeitas de maneira sincrética e global, movido por uma atitude de curiosidade.

Em seguida, compreender e dar sentido aos elementos levantados, em uma fase analítica e de concentração, crítica e síntese, com uma ordenação lógica. E finalmente, incorporar esses elementos à realidade do leitor, mergulhando definitivamente no texto; um tempo de recolhimento e cumplicidade entre quem lê e o objeto de leitura.

Por mais romântica que seja a teoria sobre a leitura e repleta de subjetividades, é preciso entender que o mundo contemporâneo apresenta uma série de desafios que surgem com o avanço da tecnologia atual, atrelada aos movimentos ideológicos e sociais que movem a humanidade muitas vezes na direção do esquecimento da leitura.

Dentro dos corredores escolares, a disputa por atenção dos alunos é um desafio diário, levando a problemas sérios de concentração em tarefas que pedem mais concentração. O tempo torna-se uma moeda de troca cara, ainda mais quando levamos em consideração a padronização dos governos estaduais para plataformas de leitura como ferramenta pedagógica. Um aglomerado de bancos de dados com objetivo de pressionar professores por resultados imediatistas e deixar os alunos sem uma apreensão dos sentidos mais complexa e fruitiva da leitura.

O desafio da licenciatura não é uma batalha contra as máquinas. Os utensílios tecnológicos estão postos como verdade cartesiana. É preciso uma vereda ampla de entendimento sobre como a fazedura do traço dentro da escrita pode trazer ao palco uma nova perspectiva. A literatura ao preconizar o tempo e amparo ao detalhe nos elementos da leitura, deixa clara a teoria derridariana sobre o rompimento das fronteiras entre forma e substância. A produção do texto então como elemento macro desse traço torna-se então primordial. Investir dentro da sala de aula em gêneros concisos, que acalentem a poesis como fruição literária, me parece uma saída de muita relevância.

O material didático do ensino Fundamental I e II e EM apresenta uma gama de textos e atividades que por mais abrangente, com uso de cartazes e infográficos como gêneros textuais, por exemplo, mantém como enredo a produção em massa dentro de plataformas algorítmicas. O produto final dessa lógica, é a quantidade. O estudo em grupos torna os estudantes operários apertadores de botões. É preciso mais do que isso.

Referência bibliográfica:

FONTANA, Niura Maria; PORSCHE, Sandra Cristian. Leitura, escrita e produção

oral: propostas para o ensino superior. Caxias do Sul. EDUCS. 2011.

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