Esse é o segundo esboço de um dos capítulos que fazem parte da primeira parte do livro novo. Inicialmente publicado em um formato mais “comum”, hoje sua mancha textual respira diferenças. Não é ainda próxima do que imaginei como produto final, entretanto, tomei certas liberdades.

Outra coisa que me incomoda um pouco, relacionada a outros assuntos, é minha indecisão quanto ao formato de publicação. O site tem se mostrado um desafio logístico como construção, porém, terapêutico ao extremo. A nova plataforma entrega tudo e mais um pouco (explorado ao mínimo diga-se de passagem), em relação ao e-mail.

Contudo, segue a indagação:

— Por que eu insisto em enviar meus textos? As pessoas têm coisas muito mais importantes a fazer. Capitalismo tardio; todo mundo precisa encontrar uma forma de não morrer trabalhando, buscar alguma compensação dentro de um cotidiano cada vez mais descontrolado. Fascismo (de novo). Afazeres d’uma vida deslocando-se numa linha do tempo em apocalipse. Não existe importância em um pretenso escritor (que pelo tempo do tentar no mercado ao avanço dos dias já seria considerado um fracasso) enviar cartas em caixas postais já empanturradas de coisas que serão descartadas ou esquecidas. As pessoas serão cozidas com o aquecimento global. Lugares com seis graus a mais. Seu corpo com seis graus de temperatura acrescidos, está em estado patológico.

***

Essa pergunta segue. Não sou uma vítima. Estou logicamente me questionando sobre a funcionalidade desse processo. Qualquer pessoa que me conhece sabe que uma das minhas características é o constante indagar.

Penso ser sempre meio vergonhoso dizer ou pensar esse “sou escritor” dentro de um país tão cheio de mazelas sociais como o nosso. É uma sensação de arrependimento moral quando penso sobre isso. Arte, e o que se faz dela esteticamente, as formas de gestão das suas formatações dentro do mercado, dentro do cotidiano e como são tomadas as decisões que regem seus caminhos, muitas vezes me parecem maiores do que a sua capacidade de alcance. Ainda mais quando existem pessoas sem acesso a saneamento básico, em condições miseráveis. Dizer que faço arte dentro desse cenário, soa aos meus ouvidos pedantismo. O mundo precisa de pessoas que mudem algo concretamente. Ser artista e suas subjetividades é quase como uma alienação dentro desse contexto.

Até esse tipo de indagação, sobre ter vergonha da denominação “escritor”, é um debate que ressoa errático. A denominação de um ofício não deveria ser tão problemática. Os arrebaldes da escrita e seus meandros transbordam conceitos que automaticamente levam a esse ponto. Essa aura celebratória de uma hierarquia intelectual sobre quem escreve, dentro de um ofício que mais se parece com um trabalho dentro de uma fábrica em tempos fordistas, direciona o caminho ao criticar a denominação.

Não estou dizendo, muito menos afirmando -pois não sei de nada- que não exista propósito dentro das letras, muito menos que lidar com a escrita seja algo sem valor. Apenas coloco minha vergonha sobre denominar-se.

***

Hind Rajab estava dentro de um carro com seus familiares. Todos tentavam sair de uma área em Gaza, que horas antes foi considerada perigosa e passível de evacuação imediata. O carro em que estava foi metralhado pelo exército israelense. As quase doze horas seguintes não possuem léxico suficiente de descrição. Soldados sionistas passaram horas aterrorizando uma criança sem idade tamanha, coberta pelo sangue de todos os familiares mortos. Todos com ela (presa nas ferragens) dentro do carro. 350 buracos de balas. Trezentos e cinquenta buracos de balas. Trezentos e cincoenta buracos de balas. Trezentos e cinquenta buracos de balas. Trezentos e cincoenta buracos de balas. Trezentos e cinquenta buracos de balas. Trezentos e cincoenta buracos de balas. Trezentos e cinquenta buracos de balas. Trezentos e cincoenta buracos de balas. Trezentos e cinquenta buracos de balas. Trezentos e cincoenta buracos de balas. Trezentos e cinquenta buracos de balas. Trezentos e cincoenta buracos de balas.

As gravações de voz que ela realizou com o grupo de resgate Crescente Vermelho são no mínimo angustiantes. Não há, nem nunca haverá, lágrimas suficientes dentro do seu corpo. Não existem. Os soldados israelenses agiam como uma orca quando faz de brinquedo sua presa. Passavam ao lado do carro, obviamente ouviam o desespero da criança a conversar com o resgate. Atiravam. Rajadas dentro do telefone. Todo o sistema de resgate dependia da boa vontade do exército invasor. Eles protelavam como podiam. Até que, em um ato de sadismo, liberaram uma rota.

A ambulância que resgataria Hind foi alvejada por um tanque.

A menina foi morta em seguida.

Ao vivo, durante uma chamada de resgate.

Todas as pessoas envolvidas na tentativa de salvar a menina ouviram sua morte, inclusive sua mãe.

***

Como é que se pode dizer que se é artista, que trabalha-se com arte. Que se é escritor, com esse tipo de mundo. É vergonhoso para mim, como ser humano, dizer que sou artista nesse tipo de condição.

Eu não me sinto, em nenhum momento, no direito de denominar-me escritor. Uma das coisas inclusive que me fez sair do Substack foi a vergonha que eu sentia por ver tanta gente batendo no peito, dando conselhos e indicando o caminho da erudição literária. “Como fazer a sua newsletter destacar-se”, “aprenda em quinze minutos o segredo de um livro de sucesso”, “na nossa oficina você aprende a escrever todo dia com maestria”. Talvez todos realmente queiram apenas pegar seu dinheiro e fugir, entretanto, mulheres e crianças não escapam primeiro. Estão presas nas ferragens.

Em um planeta que pessoas não têm saneamento básico e crianças são alvejadas por um prazer masculinista.

Eu entendo quando o professor Simas diz que não fazemos festa porque somos felizes, mas sim para expurgar as tristezas.

Talvez eu esteja cansado de ver a China por vídeos.
A vida da linha do tempo infinita é suicídio assistido.
Talvez todos devêssemos apenas manter diários com explosivos,
prestes a serem lançados,
pois a erudição não nos serve mais.

De qualquer modo…

Quando resgatei
os ossos de meu pai
estavam presos à jaula,
quadrada/perfeitamente
equilibrada no trapézio
em que a ossada foi deixada.

Nem ele nem ninguém
saberia dizer se os sons,
nascidos nos cantos,
daquele arremedo de concreto
eram - ou não -
vozes humanas.

Pregada tal troféu,
restos de pele escarificada
eram multa contratual,
na miúda derme.

Uma contenção do quem sabe...

Nem todo homem:
era a única frase que consegui ler.

Não havia testamento ou testemunhas
a posição da ossatura
tinha ares de manobra manufaturada
pelos seus empregadores.

Os r es t o s

d e m e u pai

como se tentassem fugir,
sentindo-se pertencentes ao aço.
Mesmo aço a cobrir meus olhos
nos arrebaldes do desalento.

Os dele encruados
como areia;
a traquinar possibilidade de amálgama
por toda estrutura do lugar

[cobriam o esqueleto de limbo:
herança natural de meu avô].
Deixada como legado nos trilhos dos trens.

Alguns cacos rasgaram seu rosto:
— Tentou morder as hastes.
No libertar seu cadáver,
o maxilar - ao pensar atravessar o trinco -
deixou para trás um dente dentro da fechadura.

Recolhi suas roupas,
podres, dissolvidas pelas horas;
enquanto em minha bile,
seus gritos restavam.


— Meu pai, o maior operário,
de maior fé,
em resiliência suicida:
Mesmo despedido aos pontapés
pela estrutura que o criou.

Permaneceu ali,
trancado na jaula,
resignou-se ao destino silencioso dos que morrem vivos.
Voluntário prender-se liberto.

Restos da pele moldados por ferro em brasa
o mais fiel dos empregados. Depois de morto,


ainda em pé,
uma ilusão em ereção
pelos anos;
cujo cimento sovava suas órbitas.

À ossada repeti o mesmo mantra:
— De todo o vazio que me destes, os restos escorreram pelos dedos. Quando respiraram o chão, o cheiro semeou raíz metálica: que envenenou a Terra. Ao salvar-se esticou as mãos ao mar da desilusão.

Urros sussurros serrados secos sedentos.
Não era essa a descrição exata
que qualquer usaria,
para descrever
uma fábrica de veículos de demolição.

Não haviam corpos
documentos
vídeos,
nem pastas com recortes de jornal:
Eram apenas uma jaula e paredes.

Mísera sombra,


e nem isso transcrevia o resquício do lugar.

Restava um letreiro...
Luz refém de um sequestro mal sucedido,
amputada.
Sangrava a neon,
que lhe fazia a grande circulação.


Um nome: Fábrica.
Só.

Os carpos de meu pai,
deixaram como herança uma folha.
Densa de rebordo amarelado,


quase a cair por entre os restos de carne apodrecida.

In octavo aos desavisados olhos,
a chamar atenção pelo som que emitia:


Um guizado de final de cauda

amarelado como a folha
intendo tal bola de ferro,
pendurando-se através do trapézio de aço;
no canto mais longo do guindaste.


Esperava abrir seu crânio.

A folha guia guiza,
ele a sorrir medo.


Tentei retirá-la.
Ossos caem,
ela se solta.


Está livre de meu pai,
depois de muito tempo a procurar o sol.

Ao abrir o livreto,
nasce uma planta baixa.
Dividida ao meio:
dum lado esquema arquitetônico,
doutro, esquema mecânico.

A máquina escarificada no papel parece ter engrenagens roldanas. Parafusadas violentamente a pedaços de carne. Estruturas mecânicas niveladas com navalhas em alta precisão. Produção industrial maquinaria com força esteroide de geleira impressionista. Claramente qualquer desavença com essa manufatura, seria punida.

O desenho da fábrica revela dois sólidos pilares:
— Data de construção: 1945 —
Papel social: estritamente definido através de injeções no encéfalo.

Luzes delirantes,
montanhas em sépia recebendo legendários de pretensão:
sacrificados semi mortos antes mesmo da subida.

Nos desenhos dos escritórios a frase: “verdade absoluta”.
Função definida no rodapé: espaços ocupados por especuladores.

Os trilhos responsáveis por levar operários ferramentas blocos aço desengano uma mentirosa noção de mérito concreto armas peças de reposição bólidos placas de aço chapas de manteiga óleos de inspeção nervos cabelos paus mãos fígados pés bolhas fraturas metabolismo desenfreado organização do corpo como bestialidade domínio através da violência estupro desamparo desengano desespero cotovelos bocas bolsas de marsupiais escápulas enclausuradas no sexo masculino;

restavam ainda como uma calçada.

Estrutura formativa quase intacta.

Só alcancei a jaula em que estava o pai,
seguindo as dormentes:
A refletir ódio bem específico
e uma ideologia
de organismos vivos.


Concedeu à fábrica uma perenidade
visto a manufatura das máquinas de demolição
sobreviver por séculos e séculos


com o mesmo modo de operação e gerenciamento.

Os restos desenterrados


das tentativas de sobreviver diante da melancolia
herdada pelos olhos no cotidiano.

Organograma


bem definido de castas
fenótipos específicos
organismo ideológico vivo
interesses planificados pelos interesses
dos interesses


Organismo.

Restaram sólidos pilares
deixados como prova de uma eternidade.

Antecipação em anos da especulação
imobiliária
corpórea
das castas.

cadafalsos eretos eram sobras do concreto
em que olhos de posteriores
alcançavam o passado
fornalhas expelindo cinzas fósseis
nos escombros dos galpões de produção.

Num banco semi seco
me sentei, remexendo o chão
a buscar os ossos de meu pai.
A Terra formava serrações
relevos de uma sala repleta de azulejos brancos
bancadas divididas em duas filas
rodeadas dos mesmos bancos.
Operários sem encosto
acertavam os relevos em parafusos
placas metálicas ligavam-se a molas e roldanas
outrora de um limo em sudorese
produtos químicos solidificados
fechaduras claramente cerradas
com chaves fraturas em seus tonéis.
Ouviam-se ainda
os sons das ferramentas
a delinear tramas recobertas
por uma história criada pelos vencedores
ou pelos que fazem grandeza
da auto estima maior que a cognição
espermagramada por entre músculos
fantasia em maxilares de um cavalo montanhês
suores venenos da indiferença
por nada que não seja
apenas sua voz.

Máquinas de demolição testadas em povoados mais próximos
testes de eficiência -departamento 7845 B L56-
paredes de casas demolidas como nuance de eficiência.

Enquanto corria os dedos pelo pó do desencanto
os objetos destruídos
a sujeira e tecnologia
[que só funcionava para manter a estrutura da Fábrica e seu lucro]

Câmeras de segurança rodavam em seu eixo
dadas a constantes crises de ansiedade
refletem operários cansados e seus mortos
o desinteresse de quem tentou viver por entre telas
acreditando em algo maior que eles
uma promessa em tornarem-se deuses
construindo máquinas embebidas de nervos músculos articulações
cartilagens forradas por contrações da brutalidade.

A Fábrica:

Em um canto obrigatório da cidade, inevitável tal primeira martelada no raiar do dia,
seu gosto nos ouvidos nascia imprescindível ao funcionar do mundo.


Corpos descrevem uma ordem. Dispostos em linha crescente, porém de distância assimétrica. Menores aglomerados em filas uniformes, como se sustentassem seu próprio peso inicialmente.
Era possível ao afastar-se do formato piramidal -em que estavam dispostos- perceber cabos de aço parafusados em suas costas. Atados às cadeiras em que repousavam homens de terno.


Boletins informativos com um rodapé de agradecimento pela atenção dispensada ao assunto específico. Escrito em serifa, tudo de essencial ao funcionamento da vida. Explicado em tópicos, sem as mesmas miúdas dos contratos de trabalho. Ao encostar aos ouvidos em sua textura, é possível ouvir o catarro acumulado na árvore brônquica. Corrente arrastando-se em respiração de boca aberta.


No horizonte basculante, avista-se redes entre palmeiras. Estufadas por folhas milimétricas, suas copas descritas como manjedouras de sombras aos proprietários. Toda estrutura em uma redoma; câmeras.


De mal funcionamento não há notícia.
De nada. Nem ao menos um porém.
Em uma esteira, rodando infinito, pequenas embalagens de rodízio. Mostruário. Ordenadas por numerais romanos, no seu interior documentos. Um boletim de ocorrência com acusações e uma foto carimbada em tipografia vermelha. Ao se ler “culpado”, a história de um operário. Não existem cargos maiores rodando pela esteira. Nem defeitos mecânicos.


Um depósito ao final do corredor. Porta semi dobrada, cerceada por queimaduras e desfolhada ao meio. Na sala observa-se colunas de pacotes minúsculos. Embalados em papel de gramatura ríspida, fechado por cola espessa e marcados com tinta de cotidiano. Ouve-se em seu interior desculpas formais.

As estações dos departamentos demolidas
funcionários enterrados vivos -menos os da gerência e presidência-
subalternos cultivam eternamente o sonho da ascendência
pensavam eternamente nessa possibilidade
poder hierarquizado

Pelos muros eram vistos ânsias de sucesso
incentivada pelo mérito
de métodos violentos e desonestos.

Era a única forma de manter
a estrutura social do mundo segura


[pelo menos assim teimavam em pensar.

Os destroços

afirmavam,

as regras eram mais importantes

que a construção das máquinas.

Quando prontas
camada por camada de ligas metalizadas
empilhavam roldanas, motores e fios de aço
esteiras giravam rodas mais pesadas que a razão.

Diretamente aos povoados mais próximos
lá testavam sua eficiência, o mau humor de classe
e as concessões aos brutamontes de combatimiento:

Deixando somente uma parede em pé
sem destruir por completo as casas;
seus moradores ainda vivos. Um funcionário,
depois da demolição, verificava os restos
explicava aos moradores
seu sacrifício ser primordial
a família era heroica.

— Por colocar o bem da fábrica antes de tudo,
poderiam se orgulhar dos cadáveres e dos mutilados
deixados obrigatoriamente para trás.

Render-se jamais ao desalento pois eram as pessoas mais felizes do mundo;
contribuíram com a evolução da raça humana. Cederam corpos
à fábrica. Em contrapartida, caso todos concordassem,
receberiam casas de condomínio matemático.
Viveriam sob a lei da ordem manufatura,
da família e do bem.

Embaixo do corpo de meu pai,


morto como ele, um panfleto.

Benefícios:
aos familiares uma rosa;
encontro com avatares da presidência;
curso de formação dos grupos de defesa;
oportunidade de carreira pedagógica;
área: Evangelho da Construção;
na conclusão do curso: publicação de um livro;

A não aceitação revela a execução sumária no local,
descontava-se o valor da bala aos familiares restantes.

Encontrei uma lembrança,


uma foto.

Meu pai,


alguns amigos em uma festa.
A cidade não afetada pelas máquinas.

Eles em piadas, fazendo fotos
atrás de uma armação que parecia uma cela.


A câmera estática, os corpos sem menção de movimento
apenas a boca estalava uma anedota
tal último riso antes das cortinas cerrarem-se.

Profecia vinda dos líquidos de revelação
por entre as sobras dos ossos recolhidos
através das grades.

Impossível não contar o eco de sua voz
a perfurar os tímpanos. Mesmo morto.
Maldizeres em urros
a progressão geométrica da ausência,
vazante dos braços cada vez mais pesados
ocultações de cadáveres:
deixados enterrados por entre as dormentes
validações imensuráveis do eu
protocolos de controle em painéis perpetuados
em cores ralas. O acolher assassinos
sentados vinte e quatro horas por dia
em suas máquinas.

Nos escritórios


nos

roubos

da

alma.

O

corpo

de

meu

pai


deixou a mão

presa


num arremedo de fuga.

Es
ti
ca
da
co
mo
es
ta
va

lembrava seu alcance certeiro no rosto.


O moralidade vazia
da honestidade de mentira.

O traço formado
dento do rochedo primal
e sem nenhuma conexão com o futuro
muito menos com o divino.

Apenas a construção de uma nova máquina de demolição.

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